sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Corpo e alma

Os assuntos da alma não dizem respeito
ao coração.
Deus coroou o sexo com o orgasmo
para incentivar a propagação.
Aí está:
armadilha veloz, lancinante,
apaixonantemente quase
impossível de se negar.
O sexo brinda a vida,
dilata as pupilas e faz a perna, hesitante,
tremular.
O sexo com a sua amiga
no elevador, no motel.
Amante.
Antes mesmo de se saber gente,
antes mesmo
de se estar neste instante.
A isto não obstante,
tudo é dor no estupro.
E à alma, também vejo acontecer
assim:
pensamento é gozo libertador;
opressão é depressão sem
fim.


Fabiano Martins

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Vivos

Antes era leve e não possuía palavra na boca.
Hoje, pesado, saúdo com muita alegria
a todo espírito e alma rota.
Não acredito em verdade
que se conquiste
alimentando a ação generalizada.
Vou na contramão da globalização,
desejando a coisa menos familiarizada.
Aos montes de homens seguidores,
sei que sou mal visto.
Nasci com uma idéia
que me persegue:
não devo ser ao pensamento omisso.
Assumo; afasto; quero; rechaço.
Enfim, há tanto no que sou,
que só posso ser em ti!
Mas não me aponte o ecrã
como forma de dizer que já consegui.
Quero ter contigo à noite,
sem fios de cobre, sem telas de computador.
Desejo venerar o teu sorriso e a tua palavra
com árduo e intenso
louvor, pois
estamos vivos!


Fabiano Martins.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Anoitecer

Aguardo-vos, chamados do ego.
Para levarem-me além
do meu desapego.
Aguardo-vos
chegarem
nestes carros
voadores.
Levem-me, chamados -
a me achar
menos mortal.
Aceitem-me
no final,
angustiado;
vendo a sorte
do afogado
e despertando
para o mal.


Fabiano Martins

Das razões que movem o mundo




Quer saber o que eu acho da vida?
Um grande Teatro de
convenções impostas.
Não, desculpe. Essa não
é a melhor definição para vida,
mas para o viver no mundo de cá.
Quero descobrir o que há
nesses homens,
que vezes são bons,
e ora são maus por horas.
Quero saber porque meu instinto
preserva o ímpeto meu.
Derruba-me acreditar
que livre é o home rico.
Quero ser livre feito o mendigo,
mas então não terei lugar.
O que há?
Não entende que isso
de comprar vai te derrubar?
Ah já sei, vamos enfrentar o
mal corroborando o seu acontecimento.
Vamos destruir homens para
outros caberem bem,
dentro.
Aos que estão à margem?
Que sofram nas linhas férreas
dos subúrbios abandonados.
Eu vim de trem
de um lugar longínquo.
No meio do caminho havia
pessoas vivendo na sujeira.
Eram pessoas?
Veja bem, eu vim de trem.
Havia pessoas jogadas a um banho no esgoto.
Eram pessoas!
Era gente com a minha cara,
minha imagem e semelhança: duas pernas, nariz, boca.
Pagam o preço porque acham que é normal estarem ali.
Não é normal.
Não é normal romantizar a sujeira,
por meio de palavras corriqueiras.
A sujeira é bela, mas não é romântica.
Afora tudo que acontece, eu não vou mudar o mundo.
Afora todos os dizeres, o comunismo é comum aos interesses.
E tudo o que vejo acontecer é retrocesso.

Progresso de metal, não quero.
Não quero viver ateu e perplexo.
Há alguém além do véu da meia-noite,
alguém quer alguma coisa.
Frente ao que vi na linha do trem,
ao que vi na margem da estrada que caminho,
estão pessoas com sentimentos
e sensações iguais aos meus,
meus amigos
inimigos.
Eles querem me matar, pois eu os mato também.
Pouco a pouco e displicente,
no caminho do
trem.


Fabiano Martins

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Pé na estrada

Ela revela:
"-Eu não quero miúdas certezas.
Eu não quero nenhum ressentimento;
não sinto rancor nem remorso,
mas devo dizer que lamento."

Ele diz...
"-Quero aprender contigo.
Quero aprender com seus tropeços.
Não há razão; há não-palavra,
que devora o sentido
de tudo que escrevo!"

Ela encerra.
"-Eu não quero brigar com você.
Eu só quero aprender a ser só,
como tudo que falo ou revelo,
mesmo quando me sobra a pior.
É difícil seguir nesta estrada
obscura e incerta... e deserta!
É difícil assumir o que quero;
é difícil te ouvir com a porta
aberta."


Fabiano Martins

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Nada

Hoje de manhã, veja você, o Nada tocou minha campainha.
Abri a porta, mas não era ninguém.
Maldita personagem é o Nada!
Saí pela rua e olhei para as pessoas.
No centro, quase todas de cara pálida,
rezavam seus rosários impávidas,
reclamantes de pormenores
insignificantes.
O Nada rondava-me,
espreitava na esquina, imutável;
imperceptivelmente camuflado
entre a hora do desjejum
e o almoço, entre os pedaços
rasgados de um bilhete de loteria.

O dia passa:
Li no jornal tragédias;
assisti na tv melodramas;
dormi sozinho numa cama.
Acordei para o café que coei, para a manteiga que passei
na bisnaga.
Eis a vida que me cabe;
a escolhi sem perceber,
sempre partindo numa reta imaginária;
sempre cabendo sem caber.
Abandonei-me entre escolhas e vontades,
entre pessoas que simplesmente
esqueces-te depois de sua passagem.
Enfim, quando jovem
não conheci amigo mais fiel
que o cigarro.
Tanto, que na sua ausência
não pude nem parar de me mexer. Tremia.
Na sua abstinência, aprendi que estou
sozinho. Oh saudade que traz a chuva,
como é bom fumar no frio...
Oh saudade melancólica que me traz um arrepio!
Sucumbo à vontade,
acendo o pavio da minha sorte.
Minha morte é programada,
tão certa quanto essa fumaça.
Veja só: ajudo-me a matar o tempo
com o alento do que me mata.
No final, somos todos muito
parecidos com o teor crítico
que preenche o
Nada.


Fabiano Martins

sábado, 24 de setembro de 2011

Sobre a falta de gentileza

Às vezes, me sinto
um figurante solitário
num comercial de
supermercado.
Ando pelas ruas
a aguentar
o peso de uma sacola.
Sob o pretexto de estar
atrasado,
me ponho a andar
mais rápido.
Subo elevadores,
escadas;
atravesso portões.
Falo das coisas
erradas;
aprendo antigas lições.
Tenho mais uns
cinquenta anos
de vida,
se tudo der certo até lá...
Não sei o que acho direito
deste manto
que cinge
estelar.
Não tenho tempo
para ver o céu;
devo me ensacolar.
Há vazio nos muros
do Rio,
Há vazão de maré
atrasada,
Há viver e viver
sem falar.
Há o que há
na sacola
pesada.


Fabiano Martins

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Nascimento

Minha mão retesa sobre a cabeça de uma criança
protege a ela e a mim.
Queremos escapar do fim augusto
entre lábaros dissociados da paz.
Da noite, sobrou a boca gasta a dispersar saliva,
feito a água da chuva abarca
a idéia mais permissiva.
Estou só nas veias espessas do meu caminho.
Minh´alma grita espaço afora; quer o abono do carinho.
Entretanto, meu corpo singra os mares;
deseja arfante e
quer.
Deitado em um leito vazio,
atado pelo umbigo,
saio de uma
mulher.


Fabiano Martins

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Apé

Desejei a sua morte,
por entre os lençóis e falácias
de algum sentimento consorte.
Isso revela o meu íntimo.
Desejei que morresse
num grau ínfimo
de consciência, sem ver
ou vendo-me
aturdido pela total incoerência.
Mas nem sempre se pode
ser coeso ou coerente
no mundo posto à nossa frente.
Há pessoas que te derrubam com
ódio de tudo,
mesmo sem te conhecerem a fundo.
Cuidado com os perigos.
Sempre tenha cuidado,
ao que não se pode confiar na vigilância
divina e ser despreocupado.
Há que se fazer por onde,
mesmo não sabendo
como começar.
Começo e logo me perco.
Paro e recomeço a andar...
descalço.


Fabiano Martins

Caos

A idéia de tempo nasce da percepção do envelhecimento da face.
Eu ando entre bilhões de seres e não sou mais humano por isso.
As suposições gastas da imaginação embaraçam e desbancam as intenções.
Somos seres fugidios
rumo ao ápice da forma física,
rumo ao ápice da forma intelectual.
Aqui neste lugar tão grande, tão frio,
tão vazio de outras maneiras de pensar.
Aqui neste lugar há milhões que sentem como eu.
Há este tempo imaginado que não vejo passar.
Sabemos que estarei envelhecido se continuar vivo -
e este é um fato que deve constar desde cedo na minha formação.
Não há salvação, precisamos sofrer - com este já são dois fatos.
Precisamos tingir as penas duras dos dias tristes,
ao consolo de um sorriso ou de um afago acolhedor,
ou infinito amor de mãe.
O que te serve de atenuante na rotina?
Quando é de manhã e você parte, mesmo sem querer ir;
parte rumo à uma auto destruição mais que permitida:
necessária.
Estraga teu estômago a golpear copos de cafés
com a intensidade voraz de quem bebe água.
O que te sobra quando dos estressantes relacionamentos empregatícios, dos realmente imensos edifícios, dos dias mais omissos onde a glória falta,
a Grande Aventura se revela?
Sobra você, bem constituído ser,
edificando uma pirâmide cujo o resultado
final nunca lhe será permitido ver.
E às mãos calejadas de tanto sofrer,
sobra a desgraça de saber que não é chegado a nós o
segredo por trás das potências que regem as coisas do mundo - (três fatos).
Um homem destina-se unicamente a como seu corpo percebe e reage
aos acontecimentos. Forma e conteúdo.
Eu entro pela esquerda, enquanto alguém sai pela direita; repulso a violência que alguém conserva.
Há muitos vieses e o pragmatismo trará lugares seguros.
É como uma peça ensaiada, um filme de autor:
todos divergem quanto às idéias e deste caos discordante, empiricamente,
a evolução acontece.


Fabiano Martins

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A jaula

Preparando-se para sua primeira consulta com o psicólogo, um
homem acomoda-se na poltrona da sala do médico e toma
um gole de ar. O Doutor percebendo o estado desconfortável
do homem lhe oferece instruções, "comece contando para mim
o seu nome".

"Meu nome é (não importa).
Tenho um casamento feliz,
e consegui certo sucesso profissional.
Hoje passei uma hora com minhas filhas. Elas crescem rápido.
Sabe, fomos ao parque semana passada
e lhes expliquei que não podiam
dar comida aos bichos. Elas ficaram decepcionadas.
Nessa idade temos muito a oferecer.
Tanta inocência reluzida
através de atos puros e gestos, que, depois
de adultos, tornam-se inverossímeis.
Elas ficaram decepcionadas pois queriam alimentar
o macaquinho. Eu lhes disse não..."

Neste instante uma emoção toma conta do locutor:

"Não... o que me incomodou foi
perceber que eu mesmo já tive essa vontade,
e fui repreendido da mesma forma pelo meu pai.
Ele me disse não, igualmente.
Não... o que me incomodou foi perceber
o quanto a minha vontade de dar foi
substituída pela vontade de tirar proveito, pouco a pouco,
lentamente...
Fui crecendo e perdendo algumas coisas humanas.
Percebe? Matamos a inocência no berço.
Com mentiras vestidas de vermelho e coelhos
que trazem chocolates.
Hoje, adulto, levo minhas filhas ao Zoológico,
enquanto o certo seria liderar
uma revolução para ver aqueles bichos
soltos com suas zoonoses, correrem livres
para morrerem ou matarem
e poderem participar da vida,
e não simplesmente servirem ao entretenimento
vago e distante
de serem vistos feito espécimes, ao invés de contemplados
em sua magnitude voraz,
natural."

O pensamento intrigante daquela revelação fez o psicólogo mover-se da cadeira.

"O Doutor não percebe o que quero dizer?
Não? Pois bem, usarei de uma forma mais transitiva agora:
Ao passar pela jaula dos leões, eu tive - veja bem - pena deles.
As meninas gritavam e tinham medo. Natural, eu acho.
O que me surpreende é esse pensamento. Afinal,
como posso eu, mero arremedo de uma convenção determinada
do que deve ser um homem, ter pena de uma força tão impressionante
e selvagem como são os leões?
Sim, eles estavam presos na jaula, domesticados,
com refeições intermitentes e satisfatórias,
com médicos especialistas que lhes mantinham vivos,
enquanto tudo que desejavam era morrer.
Tive medo, doutor, porque me sinto
assim."


Fabiano Martins.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Agora e na hora de nossa morte

Do cheiro de éter, vem uma manhã luminosa.
Pouco a pouco, caibo eu em um carro;
cabem minhas pernas
na parte da frente e
meus braços abraçados às costelas;
cabe o ouvido e a boca,
mas os olhos... estes não cabem.
Ah, sim! Cabem palavras e
letras demasiadas,
assim como o silêncio e o refluxo.
Inteiramente, torno-me cabide
de tudo que há no mundo:
Cabem as coisas erradas, a mentira e a náusea;
o amor, o ódio e o pecado, também cabem.
Caibo na CTI de algum hospital,
examinando friamente o que somos
nesta rotina ofertante de bem e mal,
pela madrugada.
Cabe-me o morto ao lado e o alívio imaginário
de estar em casa.
Sinto-me, curiosamente, diferente.
Caibo eu aqui quase lá,
desejando mais um pouco permanecer,
sem nem direito caber em tanta vontade de
amar.


Fabiano Martins

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A moça - (Tonho França)

Primeiro Lugar - Prêmio Francisco Igreja (2011)


A moça...

Tinha os olhos e cabelos formados por feixes de águas negras e profundas
A pele morena e lisa em tom de terra secular e misteriosa
Lábios finos e doces como sumo dos morangos
Sua voz era a mesma das deusas e das prostitutas
E guiava o voo dos pássaros e o rumo do sol
O vestido de neve rendado por pedras e ervas
cobria o corpo bordado em fios de ouro e pérolas
Era a moça de Santa Cruz de La Sierra
Era a moça de santa Cruz
Na mão direita estampada a face de vários mortos
E na outra um cajado de lua e estrela
Os seios erguidos apontavam o céu
amamentavam pequenos anjos que nasciam nas noites de inverno
Não era amante de homem algum ou de qualquer criatura
Os pés descalços pisavam o tempo e as promessas
Suas lágrimas banhavam os vales em trigos e vinho
E era a moça de Santa Cruz de La Sierra
Era a moça de santa Cruz
Era a santa
Ela a cruz


Poesia de Tonho França
site: www.tonhofranca.com.br

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Prêmio Francisco Igreja - edição 2011

Informe:

IV Festival de Poesia Falada do Rio de Janeiro
(Prêmio Francisco Igreja)

ANUNCIA OS CLASSIFICADOS:
os 20 melhores textos, do Festival de Poesia Falada do Rio de Janeiro, que concorrem ao Prêmio Francisco Igreja / 2011 serão apresentados na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, no dia 16 de setembro, a partir das 16:30h, no Auditório Machado de Assis (entrada pela Rua México).

Poesia concorrente: Aquedar e Quedar - Fabiano Martins.

para ver todos os concorrentes, segue o link do site da APPERJ:
http://www.apperj.com.br/IVfestival_poesia_faladarj_classificados.htm


Abraços.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Conivência

Estamos numa casa
em algum lugar.
Há uma luz fria,
que se insere
por entre o
sereno do
fim da noite.

Respiro em seus ouvidos.
Você me diz sobre o caos
e as coincidências;
eu não acredito em nada disso,
mas sorrio.

Você, tão minha,
em meus braços,
simplesmente dorme.
A dor do mundo
acaba
frente ao consolo de outra
alma perdida.
Somos duas crianças ainda;
duas crianças da noite,
abraçadas em um quarto
de luz fria,
cobertos por pensamentos
e sentimentos tão psicologicamente
óbvios.

Aqui estou e cada segundo dura.
Daqui não vou. Desejo estar.
Silêncio faço, pois não quero te acordar.
Sinto que nem mesmo se quisesse
poderia.
Vejo seus cílios dos olhos e pele da boca.
Corpo torto; alma rota.
Não devo te acordar deste sono,
matenho você em meus braços
e a noite
passa.

Não me acorde também
deste sonho,
onde só posso contar contigo,
contra imensos obstáculos
e grandes amigos perdidos.
Ou então, me acorde
e mostre que na vida, tal como na guerra,
precisamos de aliados frente aos perigos,
e que frente aos perigosos inimigos
é preciso também ser
fera.

No entanto, o que desejo
é a ilusão desta madrugada.
Feito álcool, teu abraço entorpece; faz-me sentir mais vivo.
Todos os dias, há uma estrela que fenece;
e ao que o céu, lentamente, obscurece,
conivente, sigo eu a preservar
teu brilho.


Fabiano Martins.



Inspirado no epidósio "No Meio da Noite Numa Casa Escura em Algum Lugar do Mundo", do filme "Cenas de um casamento" - de Ingmar Bergman.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Abandono

Será este silêncio
fruto da minha imaginação?

Ouço sinos e vozes de homens.
Há crianças nas ruas
e esperanças em seus pequenos olhos;
elas aprendem desde cedo
que é preciso resolver seus problemas
sozinhas,
contudo, não poderão agora
saber sobre o abandono
da vida adulta.
Há um indulto, chamado conforto.
Há outro, chamado fraternidade.
Ambos são excludentes.
Elas não sabem disso ainda;
são inocentes.
Este silêncio de que lhe falava
é a resposta do universo;
este som de nada misturado
com coisa alguma
advindo de uma nuvem
posta sobre a minha cabeça.
Não há respostas, somente
palavras ditas por homens
e sinos que emitem sinais.
Não há respostas, que não a perda da fé...
mas e se ela resiste, e alguém cede os joelhos
à terra batida a implorar
por perdão?
"Perdoe-me pois já nasci amaldiçoado,
fruto de um grande
pecado."
"Perdoe-me também pelo
escárnio e por todas as contradições
que minha mente limitada não consegue desvendar."
"Perdoe-me por tentar ser feliz,
num mundo onde impuseram-me o
sofrimento."
Perdoe-me por este solitário lamento.

Ah! Uma alma notívaga -
dentre tantas outras -
anda pela linha do trem;
alma incólume - não quer nada.
Unicamente deseja
deixar de ser.
Eu a sigo pelo caminho.
Pequenina alma, cheia de vontades negadas.
Como pode o mundo ser tão duro contigo?
Eu sigo você por essa estrada,
e desejo-lhe proteção.
Mas também não sou nada
e, portanto, nada posso fazer;
assisto à sua ruína num camarote
bem posicionado.
Ninguém se importa com a sua dor,
e nem mesmo você importa-se
com a dor de ninguém.
Este é o fato.


Fabiano Martins

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Passageiro - Áudio

video

Passageiro

A rotina vagante
e a energia
cadente
são de mim, por mim;
são daquilo que me é
inerente.
Solidão
é coisa de
uma nota só;
seu dissabor
é

e
Dó.
Os lábaros balançam
e saboreiam
o vento, enquanto
minha cidade
uiva
num só lamento.
Os ternos dizem
quem os homens são;
os homens ternos
morrem
sempre em vão.
Não negastes minha mão
à estrada,
então nela
busco
saída.
Sigo sempre a notívaga
caminhada,
derramando pouco a pouco
minha
vida.


Fabiano Martins

Valores

Um homem de moral
não rouba.
Vejo reputados
homens na televisão
e eles
roubam.
Mas juram inocência.
O que se há de fazer? Negar?
Jurar?
Votar...
Um homem de moral não rouba,
entretanto, o contrário
é que me vem
mais verdadeiro.
Sou natural do Rio de Janeiro
e lhe digo,
talvez a moral
não seja a melhor coisa a ser conquistada.
Afinal, de que vale aquele que negou
a jogada?
Morreu pobre, sem respeito
e sem direito a leito
em algum hospital.
E os outros?
Edificaram feito faraós
cidades para a música
ali,
bem em frente ao Lourenço Jorge,
onde quem não tem
moral,
acaba
entregue
à própria sorte.


Fabiano Martins

Do pensamento anárquico

Se te pedirem o troco na rua,
dê tudo que tens.
A divisão nesse mundo é injusta,
não te custa
custear alguém.

Mesmo que esta intenção
legitime
a bebedeira inveterada de outrém.

Qual razão
para viver é a mais sublime -
e quem sou eu para responder...
e você
é
quem?

Se te pedem algo na rua,
dê mesmo que vá te faltar.
Há verdade na água da chuva,
mas não em se negacear.

A carteira repleta é ilusão,
preenchê-la a qualquer preço,
irremediavelmente,
levará à perdição.

Não te locupletes
de coisas vazias: compras, cabelos,
companhias..
Ora, o que te faz superior a alguém?
Mesmo o mendigo
que às tramas se lança,
em tanta armadilha
e tanta intenção,
é um homem - também um bicho, -
a qual o outro não estende a mão.

Por isso, te peço que does
o que lhe permitir o ego,
sem ter demasiada vaidade
pelo seu desapego.

Palavras, eu entrego
a quem as quiser portar.
Também não sou capataz de dinheiro,
pois que este é um meio
matreiro
de fazer o amor faltar.


Fabiano Martins.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O encontro

Quem me disse
que a vida tira máscaras
foi você; eu apenas queria viver,
não queria refletir.
Quem me disse
para estudar mais sobre a morte
foi você;
eu, inconsciente, ia caminhando
para a despedida.
Quem me falou que verdades
são tão mutáveis quanto o
céu do dia,
não viu que hoje fez sol o dia inteiro.
Não, isso não foi você
quem disse;
fui eu aprendendo
a ser mais como você.
Agora eu vou,
pois a hora passou mais veloz
que esses pedidos feitos
ao vento.
O adeus
faz parte do encontro,
e eu
lhe digo.
Adeus.


Fabiano Martins

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Conjecturas

As pessoas passam pelas ruas.
Elas se olham
uma a uma
sem se ver.
Copiam-se e desdenham-se;
entendem-se e desentendem-se;
matam e salvam.
Quantas pessoas pelas ruas
assumem seu papel
mais capital?
Quantas outras ficam nuas
dependentes
daquilo que é normal?
Quais delas estão vivas?
Todas falam e se movimentam, mas
quantas delas estão vivas sobre
esta calçada e sob este sol?
Quantas comem sobras?
Quantas morrem sem viver?
Quantas são escravas dos seus medos?
Quantas pensam com neuroticismo
nas relações humanas...
As pessoas procuram espelhos
pelas ruas
e reúnem-se em grupos
amistosos.
Há valor em medir-se pelo seguro
e pelo sempre cômodo
óbvio.
Não posso recusar ser igual, pois
nasci também da
secreção.
Não posso abster-me de propor
que podemos nos salvar
através da negação de alguns valores,
mas talvez esse meu comportamento
seja apenas natural,
comum. Outrossim, negar e estar à margem
pode ser o óbvio
para esses meus relacionamentos
igualmente amistosos,
aos quais dou a mão na
rua.
Mas estas são apenas
conjecturas.


Fabiano Martins.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Interpessoal

Às vezes, há verdade
nas palavras.
Outras, só
vazio.
Em alguns dias,
minhas estradas
são verdadeiros terrenos
baldios -
quase sempre
de rotos caminhos.
Enfrento a dura peleja
em silêncio e sozinho.
Mas não seríamos
todos assim?
Hoje, nasço. Amanhã, morro.
Cabe-me um pequeno
pedaço desta ressurtida
janela, ao qual chamam
tempo.
Cabe-me poder
lhe dizer
que a única coisa que sei
é que
é preciso ter fé.
De outra forma,
não poderíamos lidar
com tanta violência gratuita
e cinismo.
Sei também
que às vezes,
nada pode ser mais
criativo
do que discutir
o existencialismo.
Mas, e daí?
Será que a poesia
é para cura, ou apenas
para alívio?
A poesia é o
paleativo do poeta,
que não pode matar
a fome dos outros,
nem usar de violência, e
nem falar em outro
nome,
que não seja o seu...
então, pronto!
não há como fugir
dessa condição
solitária
e reivindicativa
da reflexão.
Minhas palavras são
o meu desejo,
a minha visão,
o meu egoísmo.
Mas não seríamos
todos
assim?


Fabiano Martins.

Ironia

Carro, cabelo,
blue-ray,
dvd,
computador,
Ipad
eu e você.
Banco,
montante,
corrupção.
Vaidade, mordomo
negação.
Inumanos humanos
capitais.
Morte a quem rouba
três reais.
Tecnologia,
ar condionado,
roupa de luxo
e farrapos.
Mármore,
ouro,
diamante,
Luxo, conforto
e muita
fome.


Fabiano Martins



http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/09/centenas-morrem-diariamente-de-fome-na-somalia-diz-onu.html

domingo, 4 de setembro de 2011

de um passeio só

Sinto que tudo gira
ao redor de algo que eu
desconheço.
Dizem-me que há
o além
feito de silêncios.
Onde vai este além, ou
melhor,
para onde nos leva?
Esse silêncio
que grita,
fala à minh´alma.
Como pode ser o vento mais veloz...
Este vento sem partículas,
meu corpo acalma.
Este silêncio que
grita,
tudo faz girar no meu entorno.
Percebo-me só.
Tudo roda e
nada posso fazer
para te tirar dessa órbita
minha.
Apenas o
silêncio nos une - em mim, grita.
Em ti, não sei.
Este silêncio nos une
mais ainda porque
não o entendo,
mas consigo
sentí-lo.


Fabiano Martins

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Da socialização - Áudio

video

Ardil

À garganta,
seca um nó
embuído de engasgo.
Vazia,
a rua rompe o silêncio
pálido.
Vêem-se as sobras da noite
nos teus olhos escurecidos e
obstinados.
São bandidos e anjos
decaídos,
investidos
de poderes tácitos.
Convincentes e prementes
Vão à mente
muito fácil e
movimentam inconscientes
terrestres seres
prédio
abaixo.


Fabiano Martins