sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Seca

Uma nota: parece que é em vão,
que não é nada, um voo de avião, uma palavra.
Nado em um mar que parece existir apenas para meu mergulho.
Para mim.
Às vezes, pela experiência somos imprudentes e afirmativos,
enquanto as vicissitudes levam tudo. 
Desconfiguram.
Então, nos apegamos descuidados à dor
sob a pena de nos alimentar dela.
Mas no fundo uma sensação
para com o Criador: parece ser em vão tudo isso.
Todas essas mães sem seus meninos,
suplício.
Toda essa alegria de fim de campeonato
e martírio.
Todo o assassinato e conspiração e conspurcação e excomunhão e desabamento
e felicidade e euforia e amor 
e tudo mais o que possamos ver e sentir 
com nossos olhos e corações,
abandonados como gotas no mar,
em multidões que se evaporam de repente, 
eu mesmo guardo esse sentimento indizível
de angústia e incompreensão
para com a Condição.
Parece ser em vão,
parece ser em
vão.


Fabiano Martins

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Contínuo

Somente o que tomei conhecimento 
transmutou-se em minha mente como algo novo 
desconexo de seu sentido presente,
pela minha notória capacidade de aprender e meus anseios nunca atendidos.
Tudo quanto vejo, quanto atino. 
Tudo quanto à força se mostra pela química do invisível.
De motivo emotivo. 
O quanto chorei, o quanto vibrei a partir de um estímulo
Todos os fantasmas, as aparições, 
todas as células em seus mais pequeninos quinhões,
compondo aquilo que sou no tempo e no espaço
onde algum ajuntamento de ideias faz por vezes parecer fácil 
perecer.

Inevitável.
Meu laço contíguo com a vida assim me quer:
feito de secreção e escolhas, músculos em ossos sulcados,
a ser simplesmente tocado por aquilo que me cativa
e de fazer meu algo por mim cativado.
Simplesmente por não conhecer a escolha posta em um caminho nunca antes trilhado,
sigo com uma certa certeza incerta e premente (a todo o momento) que  preenche meus dias de existência.

Quero, por bem, tudo aquilo que posso querer.
Faço, eu sei, tudo quanto posso fazer.
Então apenas por assim dizer:
tudo o que sou continua.


Fabiano

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Vivo

Caminhar na escuridão da noite
costumava me acalmar
Essa meta linguagem
da vida.
Na escuridão da noite caminhar:
não se pode ver muito
o exercício revigora, 
o espaço mostra-se grande.
Continuamos porque 
do esforço vem uma recompensa química.
Produzo pegadas,
reproduzo diálogos,
volto no tempo,
adianto-me e prevejo certos aspectos
de um mundo futuro.
Andar à noite 
com o corpo livre no espaço,
a deixar pegadas, logo substituídas,
a perder-me em pensamentos
pequenos
que não abarcam a completude 
do que pretendem abarcar.
É um início, sim,
de um poema
que vem me buscar,
e que coroa o fim de cada andança.
Não mudo,
mas estou revigorado
como o rato na roda
como o cão atrás do rabo.
Amanhã recomeço.


Fabiano Martins

domingo, 22 de novembro de 2015

depoimento

A minha vaidade quer
a tua resolução convém
as palavras perdem seus sentidos
pessoas alimentam-se do desdém

Não caibo nas ruas pequenas,
nas vielas estreitas em que me condicionei a andar.
Não quero as coisas perfeitas
pois que estas são feitas para acabar.
Acabo por querer o que tive,
quando tudo o que tenho já quis.
Estou vivo quando me arrependo
quando dentro desta casa, lendo,
penso na imensidão,
penso no amor que tenho pelas coisas rotas
que se esfarrapam pelo caminho,
pela faísca morta dos tesouros vindos.


Fabiano Martins

Desacordo

minha voz, 
minha voz apaga
frente à tua voz, minha voz aumenta.
Com fogo apago o frio que faz na montanha.
Com fogo apago o fogo que faz.
Minha voz, minha voz agasta.
Agastada, minha voz fenece.
Fenecida minha voz sucumbe.
Sucumbida ela é destituída.
Mas frente à tua voz  
minha voz cresce.
Tua voz me dá alimento
porque bebo desagravo
E ódio é solução para um bochecho.
Minha voz, tua voz engrandece
porque bebo ódio
mas sozinho... sozinha, minha voz enrouquece,
anua,
embranquece.
Apenas a raiva
me leva embora a melancolia,
apenas a raiva me faz rugir de euforia
e por isso não concordo.
Eu descordo.
Em comum, temos o desacordo.


Fabiano Martins

da feira

o cheiro da peixe é pra lembrar a feira
que passou
o vento nas folhas anunciam aquosa precipitação
sopram
nas folhas verdes das plantas não colhidas
pelo caminho
o cheiro da chuva é pra lembrar que ela vem
que é água
o seixo que espuma
nao consciente
orienta
serve pra ver que estamos vivos
aqui
imersos entre terra e céu
em nossa realidade
de chuva
de peixe
de vida


Fabiano Martins

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

projeto ótimo

Terra girando
as horas passando
o dia acabando
a noite nascendo
o dia acabando
a tarde morrendo
manhãs se arrastando
os dias virando
os anos findando
as luas mudando
as noites nascendo
A chuva pingando
O olho secando
a testa enrugando
os olhos cinzentos
A boca secando
as frases cedendo
os impulsos clamando
e tomando assento
A boca espumando 
a mão espasmando
o sopro cessando
e arrefecendo.


Fabiano Martins