quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O bule

Quando alguém fala e olha em minha direção
Percebo uma intenção feita de sujeito e ação
Como se alguém fizesse o comentário de uma luz que é muita escura
de um barulho que é muito baixo
Existem diferentes formas de se ter inspiração
diferentes seres que se manifestam de diferentes maneiras
Existem pessoas que procuram apenas pelo bem que há no fundo de uma garrafa vazia
Alguém que se completa na verborragia
Existem uns mil jeitos de se sorrir
umas vinte mil maneiras de se sentir satisfeito
É como se alguém dissesse que não vale a pena existir
ou que uma pessoa não é nada
Sinto as verdades escoando por trás do sentido oculto das palavras
Como se fosse guiado apenas pela ironia
Sinto a vontade de quem ia, mas de repente, deixou de ir 
uma verdade vazia
Sinto como se o sol não fosse do dia
ou como se o som não rompesse o silêncio
Sinto a paz do edifício que aluía
devido ao peso mal calculado
sinto o frio da espinha do calculista
do mal engendrado
Sinto demais
Sinto tanto
que sinto muito 
e no entanto 
nada
Absolutamente nada
é maior do que o vazio 
do santo oco
no andor de uma vigília


Fabiano Martins

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Presente

Escrevi umas palavras para em meu íntimo experimentar a liberdade.
Eu escrevi uma banalidade.
O que posso dizer?
Não lhe digo do amor que há em escrever,
nem da dureza que há em existir.
Não lhe digo sobre o pequeno, o ínfimo momento no qual estive feliz.
Escrevo umas palavras, sabe?
São banalidades.
Estão suscetíveis a perecer sob o tempo - um tempo que é só sensação.
Mas não estou só (por enquanto).
Esta noite não estive triste.
Por algum motivo a química de hoje me fez feliz.
Por algum motivo vivo este segundo como alguém que vê beleza na vida.
A beleza de dizer estas palavras.
A trivialidade destas coisas românticas.
Esses cânticos, afinal, de amor de poeta.
Escrevi, pois, da minha alma: uma ideia cativa fez-se liberta.
Um pequeno descanso.
Eu me deitarei e amanhã hei de levantar.
Minhas mãos se erguerão aos céus na esperança de existir.
Ou talvez apenas beba todo o meu café.


Fabiano Martins

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Filtro

Um poema sujo
Lido com a luz na tua retina
Fio de brilho a correr pela prata
Retinindo
Expandindo
Sendo apenas o que é
Eu mantenho a fé
Faço notas e as guardo
Acredito naquilo que é meu
Um poema agora limpo
Filtrado pelo brilho do olho seu


Fabiano Martins

terça-feira, 10 de abril de 2018

Verdade

Algo em mim quer revolucionar,
algo me pede para que mude minha realidade
Cada ideologia plantada em mim
pela vontade
Quer transformar a dor em oração
a palavra em poesia
a calmaria em intensidade.
Não sei se reajo, se sou por demais verborrágico
Algo em mim me pede para que seja assim.
A cada gota de suor festejo,
a cada lágrima que me escorre sou grato,
sinto gozo nas palavras que escrevo,
sinto saudade e angústia de verdade.
"Calma", pede-me o cônjuge desacostumado com a minha ansiedade
"Reflete sobre as coisas que diz, encontremo-nos para um café na cidade".
Mas a cidade é fria, esfria o que está dentro da xícara,
fala-me entre sinais de trânsito e pedestres - mina a linguagem.
Porém no momento em o sol se põe a descer, recupero minha felicidade.
No momento em que ofereço a esmola a um menino,
em que o assalto e o espanto se apresentam repentinos, 
em que uma bala atravessa e queima a carne,
no momento em que há dor, em que há amor, 
em que consigo viver o presente tal como ele é.
Mas então, esqueço de quem fui: 
frivolidades, banalidades, efemérides.
O café e a loja de discos,
o carro, os degraus das escadas, 
E as palavras que contrariam o tempo.


Fabiano Martins

sexta-feira, 2 de março de 2018

Aprender a ver

Devo aprender a ver
aprender a observar
A queda do pássaro n'água
um peixe a menos no mar


Fabiano Martins

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Dois

Amo as pontes que construo,
aquedutos do meu ser.
Amo amar você e estar contigo em grupo
amenizando a dor que há.
Amo pensar no que podemos ser,
no que poderemos conceber,
feito criança bebê,
feito eu 
feito de vozes e nuvens;
feito eu feito de você.
Feito meu feitio que me faz te ver
como o que me incita à luta,
o que me comuta,
o que me é incomutável,
inconcebível,
inexplicável,
irascível.

Tua voz,
minha voz -
gritos já roucos
coisas já partidas...
minhas expectativas
retardadas de premissas,
extirpadas de razão.
Fútil.
Não pude dizer que fui útil
quando o que quis fazer foi egoísta:
narcisista,
deficiente de amor
vítima de mim mesmo.


Fabiano Martins

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Noturno

Enfrenta a noite escura,
de pecados consentidos:
seus sentidos são por mim sentidos;
meus desejos são olvidos.
Subtraído, não percebo o calor se dispersar.

Enfrento a noite fria
com o ardor de um poema áspero, 
que se prende à garganta,
e que por isso não se deve declamar.

Enfrenta a noite, amiga,
de celeumas confluídas,
de cabeças soerguidas,
e crianças adormecidas,
de palavras,
de insônias,
de vazão.


Fabiano Martins