sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Vivo

Caminhar na escuridão da noite
costumava me acalmar
Essa meta linguagem
da vida.
Na escuridão da noite caminhar:
não se pode ver muito
o exercício revigora, 
o espaço mostra-se grande.
Continuamos porque 
do esforço vem uma recompensa química.
Produzo pegadas,
reproduzo diálogos,
volto no tempo,
adianto-me e prevejo certos aspectos
de um mundo futuro.
Andar à noite 
com o corpo livre no espaço,
a deixar pegadas, logo substituídas,
a perder-me em pensamentos
pequenos
que não abarcam a completude 
do que pretendem abarcar.
É um início, sim,
de um poema
que vem me buscar,
e que coroa o fim de cada andança.
Não mudo,
mas estou revigorado
como o rato na roda
como o cão atrás do rabo.
Amanhã recomeço.


Fabiano Martins

domingo, 22 de novembro de 2015

depoimento

A minha vaidade quer
a tua resolução convém
as palavras perdem seus sentidos
pessoas alimentam-se do desdém

Não caibo nas ruas pequenas,
nas vielas estreitas em que me condicionei a andar.
Não quero as coisas perfeitas
pois que estas são feitas para acabar.
Acabo por querer o que tive,
quando tudo o que tenho já quis.
Estou vivo quando me arrependo
quando dentro desta casa, lendo,
penso na imensidão,
penso no amor que tenho pelas coisas rotas
que se esfarrapam pelo caminho,
pela faísca morta dos tesouros vindos.


Fabiano Martins

Desacordo

minha voz, 
minha voz apaga
frente à tua voz, minha voz aumenta.
Com fogo apago o frio que faz na montanha.
Com fogo apago o fogo que faz.
Minha voz, minha voz agasta.
Agastada, minha voz fenece.
Fenecida minha voz sucumbe.
Sucumbida ela é destituída.
Mas frente à tua voz  
minha voz cresce.
Tua voz me dá alimento
porque bebo desagravo
E ódio é solução para um bochecho.
Minha voz, tua voz engrandece
porque bebo ódio
mas sozinho... sozinha, minha voz enrouquece,
anua,
embranquece.
Apenas a raiva
me leva embora a melancolia,
apenas a raiva me faz rugir de euforia
e por isso não concordo.
Eu descordo.
Em comum, temos o desacordo.


Fabiano Martins

da feira

o cheiro da peixe é pra lembrar a feira
que passou
o vento nas folhas anunciam aquosa precipitação
sopram
nas folhas verdes das plantas não colhidas
pelo caminho
o cheiro da chuva é pra lembrar que ela vem
que é água
o seixo que espuma
nao consciente
orienta
serve pra ver que estamos vivos
aqui
imersos entre terra e céu
em nossa realidade
de chuva
de peixe
de vida


Fabiano Martins

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

projeto ótimo

Terra girando
as horas passando
o dia acabando
a noite nascendo
o dia acabando
a tarde morrendo
manhãs se arrastando
os dias virando
os anos findando
as luas mudando
as noites nascendo
A chuva pingando
O olho secando
a testa enrugando
os olhos cinzentos
A boca secando
as frases cedendo
os impulsos clamando
e tomando assento
A boca espumando 
a mão espasmando
o sopro cessando
e arrefecendo.


Fabiano Martins

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Parte

Um poema meu 
aberto: 
interprete.
Um poema meio completo -
complete.
Um poema intenso
e prático.
Impermanente.
Esquecido na gaveta do quarto;
inerente
àquilo que contém, (e de onde nasceu)
e que agora existe.
Reside neste poema meu,
agora indivíduo,
uma singularidade
de onde se pode avistar-me
como resíduo;
algo que nasceu de mim
como minha filha;
algo que se pode ter
de um nome comum
como o nome de
Olívia.
Um poema meu pende
entre a sua não leitura -
sua existência incompleta.
Um poema meio meu
que se insere como som quando lido,
decifrado,
por aqueles que lhe dão significado.
Um poema que se esbalda e banca
e brinca
e é.
Um poema que nasceu 
deste ajuntamento de letras
e que recebeu vida.
Um desenho, um retrato que se interpôs
na lida,
na pausa para o café,
no amanhecer acordado,
no cigarro - guimba - fumado,
na boca de quem disse,
no âmago de quem sentiu.
Um poema meu
que nasceu
e se tornou independente de mim
assim
como quem cresce 
mas nunca há de morrer


Fabiano Martins

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Impermanente

Tomo parte da vida
como água.
Sorvo cada partícula solta de ar
para expirar 
palavra.
Esgarço, feito o tecido de malha leve no tempo se esgarça.
Passo (e sei que isso também passa).
Sou o que sou,
muito além da pueril fumaça
que me esconde o fim da estrada
e que de forma estatutária se impõe.
Acredito ser tanto quanto posso acreditar,
mas não sei se verdadeiramente há este lugar.
Confortavelmente me debruço sobre as dúvidas
para consentir o meu jeito de ser
e me aceitar.


Fabiano Martins