terça-feira, 28 de novembro de 2017

Noturno

Enfrenta a noite escura,
de pecados consentidos:
seus sentidos são por mim sentidos;
meus desejos são olvidos.
Subtraído, não percebo o calor se dispersar.

Enfrento a noite fria
com o ardor de um poema áspero, 
que se prende à garganta,
e que por isso não se deve declamar.

Enfrenta a noite, amiga,
de celeumas confluídas,
de cabeças soerguidas,
e crianças adormecidas,
de palavras,
de insônias,
de vazão.


Fabiano Martins

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Pretensão

Tudo quanto há no mundo e que acho belo
e vejo, e desvelo, entendo como um prenúncio 
de uma briga inevitável, de motivo invisível.
Minhas mãos se ocupam em fazer:
interponho meus tijolos com cimento.
Lágrimas são a cola, 
Sorriso é o alimento
Tudo quanto entendo
e ensejo um querer pra lá de exagerado
incide em mim por algo do passado.
E mesmo assim,
com a cabeça ungida,
com a guarda erguida
e a grande vontade 
(que me em parte me ensurdece),
sinto que há algo que me foge
que não pretendo ou posso querer pretender
explicar.


Fabiano Martins

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Encontros

Entrecortados consigo ouvir 
os passos dados 
num momento em que o erro era iminente
me persigo constantemente
iludido,
crescente
Então, proponho uma alusão
a um outro aspecto 
do que é lembrar de mim 
tão jovem
ainda
no escuro da rua
a tatear calçada
a me manter de pé frente à casa iluminada
procurando chaves, que deixei cair,
e volto aqui ao presente
presto de ter visto tudo
de forma clara e condescendente - 
o que hoje procuro é minha própria identidade.

Refletido no olhar da minha mãe, vejo que sou criança.
Volto a pensar por trás daqueles olhos,
o tudo dinâmico me escapa,
mas obstinado procuro o significado de cada palavra, 
sem pressa, sem anseio.
Na noite passada, demorei a dormir,
estive ensimesmado
lutando contra a resignação,
procurando resignificar,
procurando inspiração.
Ela me aparece às vezes, a avó da minha avó,
não sei se é memória ou reminiscência de histórias que contaram,
ela me abraça carinhosamente e há um abismo entre nós:
ela sabe da morte presente, eu aniversario na vida
igualmente há uma conexão entre nós
eu a olho e não percebo suas rugas,
nada sei do seu fim próximo
apenas a quero abraçar. 
Ela me faz um carinho no rosto e me dá um apelido.
Eu procuro seu olhar.
Hoje me esforço para me reconhecer.
Tanta coisa já passada
e os retalhos de quem sou não se refletem 
no espelho
quase como um vampiro me vejo: vitimado o menino doce,
a voz infantil.
A palavra veio errada,
em meio a uma enxurrada de recordações,
num encontro comigo, onde só eu estive presente.


Fabiano Martins


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Balir

É sobre eu falando comigo
sobre a importância de observar
sobre aquilo que preciso
para não parar
para não esquecer de lembrar
que preciso observar
e continuar
para não esquecer que existe
aquilo indefinível
sentido pelos outros
que não se pode reivindicar
é sobre esse exercício silencioso
de devoção, de auto escrutínio
de antecipação
sobre eu falando comigo
sobre algo que sei sobre mim 
e o que me disseram outros
que como eu
precisam se lembrar 
todos os dias
todos os dias
com espanto e fascínio pelo que se encerra
à vida
Olhos, bocas, nariz
água
somos nós
areia e ampulheta
nascente e foz
a voz rouca de um grito perene
de um balido
ruído
sem início
sem ideal


Fabiano Martins

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Seca

Uma nota: parece que é em vão,
que não é nada, um voo de avião, uma palavra.
Nado em um mar que parece existir apenas para meu mergulho.
Para mim.
Às vezes, pela experiência somos imprudentes e afirmativos,
enquanto as vicissitudes levam tudo. 
Desconfiguram.
Então, nos apegamos descuidados à dor
sob a pena de nos alimentar dela.
Mas no fundo uma sensação
para com o Criador: parece ser em vão tudo isso.
Todas essas mães sem seus meninos,
suplício.
Toda essa alegria de fim de campeonato
e martírio.
Todo o assassinato e conspiração e conspurcação e excomunhão e desabamento
e felicidade e euforia e amor 
e tudo mais o que possamos ver e sentir 
com nossos olhos e corações,
abandonados como gotas no mar,
em multidões que se evaporam de repente, 
eu mesmo guardo esse sentimento indizível
de angústia e incompreensão
para com a Condição.
Parece ser em vão,
parece ser em
vão.


Fabiano Martins

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Contínuo

Somente o que tomei conhecimento 
transmutou-se em minha mente como algo novo 
desconexo de seu sentido presente,
pela minha notória capacidade de aprender e meus anseios nunca atendidos.
Tudo quanto vejo, quanto atino. 
Tudo quanto à força se mostra pela química do invisível.
De motivo emotivo. 
O quanto chorei, o quanto vibrei a partir de um estímulo
Todos os fantasmas, as aparições, 
todas as células em seus mais pequeninos quinhões,
compondo aquilo que sou no tempo e no espaço
onde algum ajuntamento de ideias faz por vezes parecer fácil 
perecer.

Inevitável.
Meu laço contíguo com a vida assim me quer:
feito de secreção e escolhas, músculos em ossos sulcados,
a ser simplesmente tocado por aquilo que me cativa
e de fazer meu algo por mim cativado.
Simplesmente por não conhecer a escolha posta em um caminho nunca antes trilhado,
sigo com uma certa certeza incerta e premente (a todo o momento) que  preenche meus dias de existência.

Quero, por bem, tudo aquilo que posso querer.
Faço, eu sei, tudo quanto posso fazer.
Então apenas por assim dizer:
tudo o que sou continua.


Fabiano

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Vivo

Caminhar na escuridão da noite
costumava me acalmar
Essa meta linguagem
da vida.
Na escuridão da noite caminhar:
não se pode ver muito
o exercício revigora, 
o espaço mostra-se grande.
Continuamos porque 
do esforço vem uma recompensa química.
Produzo pegadas,
reproduzo diálogos,
volto no tempo,
adianto-me e prevejo certos aspectos
de um mundo futuro.
Andar à noite 
com o corpo livre no espaço,
a deixar pegadas, logo substituídas,
a perder-me em pensamentos
pequenos
que não abarcam a completude 
do que pretendem abarcar.
É um início, sim,
de um poema
que vem me buscar,
e que coroa o fim de cada andança.
Não mudo,
mas estou revigorado
como o rato na roda
como o cão atrás do rabo.
Amanhã recomeço.


Fabiano Martins