quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Pretensão

Tudo quanto há no mundo e que acho belo
e vejo, e desvelo, entendo como um prenúncio 
de uma briga inevitável, de motivo invisível.
Minhas mãos se ocupam em fazer:
interponho meus tijolos com cimento.
Lágrimas são a cola, 
Sorriso é o alimento
Tudo quanto entendo
e ensejo um querer pra lá de exagerado
incide em mim por algo do passado.
E mesmo assim,
com a cabeça ungida,
com a guarda erguida
e a grande vontade 
(que me em parte me ensurdece),
sinto que há algo que me foge
que não pretendo ou posso querer pretender
explicar.


Fabiano Martins

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Encontros

Entrecortados consigo ouvir 
os passos dados 
num momento em que o erro era iminente
me persigo constantemente
iludido,
crescente
Então, proponho uma alusão
a um outro aspecto 
do que é lembrar de mim 
tão jovem
ainda
no escuro da rua
a tatear calçada
a me manter de pé frente à casa iluminada
procurando chaves, que deixei cair,
e volto aqui ao presente
presto de ter visto tudo
de forma clara e condescendente - 
o que hoje procuro é minha própria identidade.

Refletido no olhar da minha mãe, vejo que sou criança.
Volto a pensar por trás daqueles olhos,
o tudo dinâmico me escapa,
mas obstinado procuro o significado de cada palavra, 
sem pressa, sem anseio.
Na noite passada, demorei a dormir,
estive ensimesmado
lutando contra a resignação,
procurando resignificar,
procurando inspiração.
Ela me aparece às vezes, a avó da minha avó,
não sei se é memória ou reminiscência de histórias que contaram,
ela me abraça carinhosamente e há um abismo entre nós:
ela sabe da morte presente, eu aniversario na vida
igualmente há uma conexão entre nós
eu a olho e não percebo suas rugas,
nada sei do seu fim próximo
apenas a quero abraçar. 
Ela me faz um carinho no rosto e me dá um apelido.
Eu procuro seu olhar.
Hoje me esforço para me reconhecer.
Tanta coisa já passada
e os retalhos de quem sou não se refletem 
no espelho
quase como um vampiro me vejo: vitimado o menino doce,
a voz infantil.
A palavra veio errada,
em meio a uma enxurrada de recordações,
num encontro comigo, onde só eu estive presente.


Fabiano Martins


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Balir

É sobre eu falando comigo
sobre a importância de observar
sobre aquilo que preciso
para não parar
para não esquecer de lembrar
que preciso observar
e continuar
para não esquecer que existe
aquilo indefinível
sentido pelos outros
que não se pode reivindicar
é sobre esse exercício silencioso
de devoção, de auto escrutínio
de antecipação
sobre eu falando comigo
sobre algo que sei sobre mim 
e o que me disseram outros
que como eu
precisam se lembrar 
todos os dias
todos os dias
com espanto e fascínio pelo que se encerra
à vida
Olhos, bocas, nariz
água
somos nós
areia e ampulheta
nascente e foz
a voz rouca de um grito perene
de um balido
ruído
sem início
sem ideal


Fabiano Martins

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Seca

Uma nota: parece que é em vão,
que não é nada, um voo de avião, uma palavra.
Nado em um mar que parece existir apenas para meu mergulho.
Para mim.
Às vezes, pela experiência somos imprudentes e afirmativos,
enquanto as vicissitudes levam tudo. 
Desconfiguram.
Então, nos apegamos descuidados à dor
sob a pena de nos alimentar dela.
Mas no fundo uma sensação
para com o Criador: parece ser em vão tudo isso.
Todas essas mães sem seus meninos,
suplício.
Toda essa alegria de fim de campeonato
e martírio.
Todo o assassinato e conspiração e conspurcação e excomunhão e desabamento
e felicidade e euforia e amor 
e tudo mais o que possamos ver e sentir 
com nossos olhos e corações,
abandonados como gotas no mar,
em multidões que se evaporam de repente, 
eu mesmo guardo esse sentimento indizível
de angústia e incompreensão
para com a Condição.
Parece ser em vão,
parece ser em
vão.


Fabiano Martins

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Contínuo

Somente o que tomei conhecimento 
transmutou-se em minha mente como algo novo 
desconexo de seu sentido presente,
pela minha notória capacidade de aprender e meus anseios nunca atendidos.
Tudo quanto vejo, quanto atino. 
Tudo quanto à força se mostra pela química do invisível.
De motivo emotivo. 
O quanto chorei, o quanto vibrei a partir de um estímulo
Todos os fantasmas, as aparições, 
todas as células em seus mais pequeninos quinhões,
compondo aquilo que sou no tempo e no espaço
onde algum ajuntamento de ideias faz por vezes parecer fácil 
perecer.

Inevitável.
Meu laço contíguo com a vida assim me quer:
feito de secreção e escolhas, músculos em ossos sulcados,
a ser simplesmente tocado por aquilo que me cativa
e de fazer meu algo por mim cativado.
Simplesmente por não conhecer a escolha posta em um caminho nunca antes trilhado,
sigo com uma certa certeza incerta e premente (a todo o momento) que  preenche meus dias de existência.

Quero, por bem, tudo aquilo que posso querer.
Faço, eu sei, tudo quanto posso fazer.
Então apenas por assim dizer:
tudo o que sou continua.


Fabiano

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Vivo

Caminhar na escuridão da noite
costumava me acalmar
Essa meta linguagem
da vida.
Na escuridão da noite caminhar:
não se pode ver muito
o exercício revigora, 
o espaço mostra-se grande.
Continuamos porque 
do esforço vem uma recompensa química.
Produzo pegadas,
reproduzo diálogos,
volto no tempo,
adianto-me e prevejo certos aspectos
de um mundo futuro.
Andar à noite 
com o corpo livre no espaço,
a deixar pegadas, logo substituídas,
a perder-me em pensamentos
pequenos
que não abarcam a completude 
do que pretendem abarcar.
É um início, sim,
de um poema
que vem me buscar,
e que coroa o fim de cada andança.
Não mudo,
mas estou revigorado
como o rato na roda
como o cão atrás do rabo.
Amanhã recomeço.


Fabiano Martins

domingo, 22 de novembro de 2015

depoimento

A minha vaidade quer
a tua resolução convém
as palavras perdem seus sentidos
pessoas alimentam-se do desdém

Não caibo nas ruas pequenas,
nas vielas estreitas em que me condicionei a andar.
Não quero as coisas perfeitas
pois que estas são feitas para acabar.
Acabo por querer o que tive,
quando tudo o que tenho já quis.
Estou vivo quando me arrependo
quando dentro desta casa, lendo,
penso na imensidão,
penso no amor que tenho pelas coisas rotas
que se esfarrapam pelo caminho,
pela faísca morta dos tesouros vindos.


Fabiano Martins