terça-feira, 10 de abril de 2018

Verdade

Algo em mim quer revolucionar,
algo me pede para que mude minha realidade
Cada ideologia plantada em mim
pela vontade
Quer transformar a dor em oração
a palavra em poesia
a calmaria em intensidade.
Não sei se reajo, se sou por demais verborrágico
Algo em mim me pede para que seja assim.
A cada gota de suor festejo,
a cada lágrima que me escorre sou grato,
sinto gozo nas palavras que escrevo,
sinto saudade e angústia de verdade.
"Calma", pede-me o cônjuge desacostumado com a minha ansiedade
"Reflete sobre as coisas que diz, encontremo-nos para um café na cidade".
Mas a cidade é fria, esfria o que está dentro da xícara,
fala-me entre sinais de trânsito e pedestres - mina a linguagem.
Porém no momento em o sol se põe a descer, recupero minha felicidade.
No momento em que ofereço a esmola a um menino,
em que o assalto e o espanto se apresentam repentinos, 
em que uma bala atravessa e queima a carne,
no momento em que há dor, em que há amor, 
em que consigo viver o presente tal como ele é.
Mas então, esqueço de quem fui: 
frivolidades, banalidades, efemérides.
O café e a loja de discos,
o carro, os degraus das escadas, 
E as palavras que contrariam o tempo.


Fabiano Martins

sexta-feira, 2 de março de 2018

Aprender a ver

Devo aprender a ver
aprender a observar
A queda do pássaro n'água
um peixe a menos no mar


Fabiano Martins

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Dois

Amo as pontes que construo,
aquedutos do meu ser.
Amo amar você e estar contigo em grupo
amenizando a dor que há.
Amo pensar no que podemos ser,
no que poderemos conceber,
feito criança bebê,
feito eu 
feito de vozes e nuvens;
feito eu feito de você.
Feito meu feitio que me faz te ver
como o que me incita à luta,
o que me comuta,
o que me é incomutável,
inconcebível,
inexplicável,
irascível.

Tua voz,
minha voz -
gritos já roucos
coisas já partidas...
minhas expectativas
retardadas de premissas,
extirpadas de razão.
Fútil.
Não pude dizer que fui útil
quando o que quis fazer foi egoísta:
narcisista,
deficiente de amor
vítima de mim mesmo.


Fabiano Martins

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Noturno

Enfrenta a noite escura,
de pecados consentidos:
seus sentidos são por mim sentidos;
meus desejos são olvidos.
Subtraído, não percebo o calor se dispersar.

Enfrento a noite fria
com o ardor de um poema áspero, 
que se prende à garganta,
e que por isso não se deve declamar.

Enfrenta a noite, amiga,
de celeumas confluídas,
de cabeças soerguidas,
e crianças adormecidas,
de palavras,
de insônias,
de vazão.


Fabiano Martins

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Pretensão

Tudo quanto há no mundo e que acho belo
e vejo, e desvelo, entendo como um prenúncio 
de uma briga inevitável, de motivo invisível.
Minhas mãos se ocupam em fazer:
interponho meus tijolos com cimento.
Lágrimas são a cola, 
Sorriso é o alimento
Tudo quanto entendo
e ensejo um querer pra lá de exagerado
incide em mim por algo do passado.
E mesmo assim,
com a cabeça ungida,
com a guarda erguida
e a grande vontade 
(que me em parte me ensurdece),
sinto que há algo que me foge
que não pretendo ou posso querer pretender
explicar.


Fabiano Martins

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Encontros

Entrecortados consigo ouvir 
os passos dados 
num momento em que o erro era iminente
me persigo constantemente
iludido,
crescente
Então, proponho uma alusão
a um outro aspecto 
do que é lembrar de mim 
tão jovem
ainda
no escuro da rua
a tatear calçada
a me manter de pé frente à casa iluminada
procurando chaves, que deixei cair,
e volto aqui ao presente
presto de ter visto tudo
de forma clara e condescendente - 
o que hoje procuro é minha própria identidade.

Refletido no olhar da minha mãe, vejo que sou criança.
Volto a pensar por trás daqueles olhos,
o tudo dinâmico me escapa,
mas obstinado procuro o significado de cada palavra, 
sem pressa, sem anseio.
Na noite passada, demorei a dormir,
estive ensimesmado
lutando contra a resignação,
procurando resignificar,
procurando inspiração.
Ela me aparece às vezes, a avó da minha avó,
não sei se é memória ou reminiscência de histórias que contaram,
ela me abraça carinhosamente e há um abismo entre nós:
ela sabe da morte presente, eu aniversario na vida
igualmente há uma conexão entre nós
eu a olho e não percebo suas rugas,
nada sei do seu fim próximo
apenas a quero abraçar. 
Ela me faz um carinho no rosto e me dá um apelido.
Eu procuro seu olhar.
Hoje me esforço para me reconhecer.
Tanta coisa já passada
e os retalhos de quem sou não se refletem 
no espelho
quase como um vampiro me vejo: vitimado o menino doce,
a voz infantil.
A palavra veio errada,
em meio a uma enxurrada de recordações,
num encontro comigo, onde só eu estive presente.


Fabiano Martins


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Balir

É sobre eu falando comigo
sobre a importância de observar
sobre aquilo que preciso
para não parar
para não esquecer de lembrar
que preciso observar
e continuar
para não esquecer que existe
aquilo indefinível
sentido pelos outros
que não se pode reivindicar
é sobre esse exercício silencioso
de devoção, de auto escrutínio
de antecipação
sobre eu falando comigo
sobre algo que sei sobre mim 
e o que me disseram outros
que como eu
precisam se lembrar 
todos os dias
todos os dias
com espanto e fascínio pelo que se encerra
à vida
Olhos, bocas, nariz
água
somos nós
areia e ampulheta
nascente e foz
a voz rouca de um grito perene
de um balido
ruído
sem início
sem ideal


Fabiano Martins