sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Parte

Um poema meu 
aberto: 
interprete.
Um poema meio completo -
complete.
Um poema intenso
e prático.
Impermanente.
Esquecido na gaveta do quarto;
inerente
àquilo que contém, (e de onde nasceu)
e que agora existe.
Reside neste poema meu,
agora indivíduo,
uma singularidade
de onde se pode avistar-me
como resíduo;
algo que nasceu de mim
como minha filha;
algo que se pode ter
de um nome comum
como o nome de
Olívia.
Um poema meu pende
entre a sua não leitura -
sua existência incompleta.
Um poema meio meu
que se insere como som quando lido,
decifrado,
por aqueles que lhe dão significado.
Um poema que se esbalda e banca
e brinca
e é.
Um poema que nasceu 
deste ajuntamento de letras
e que recebeu vida.
Um desenho, um retrato que se interpôs
na lida,
na pausa para o café,
no amanhecer acordado,
no cigarro - guimba - fumado,
na boca de quem disse,
no âmago de quem sentiu.
Um poema meu
que nasceu
e se tornou independente de mim
assim
como quem cresce 
mas nunca há de morrer


Fabiano Martins

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Eu sou poeira

Cadê você?
Não dá pra ver.
Teu nome é poeira,
poeira é você.
Respeite mais as coisas do dia
e das pessoas pequenas
respeite as limitações.
Nenhuma crença em particular
vai sobrepujar
a sua estatura,
seu tamanho ínfimo,
sua consciência limitada.
Teu nome é poeira
e a vida é aceitação,
pensamentos são movimentos
em busca de predição.
Eu e você
somos uma nuvem
invisível - nem sequer existimos.
De uma forma, nem estamos.
Quando juntos, somos 
emancipados e oniscientes
de nossa pequena relevância
Eu sou 
Poeira
Poeira
eu sou.


Fabiano Martins

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Interpretação

Pequenas faíscas saltam do seu olhar.
Minha resposta vai até onde 
tua sensatez encontra o limiar.
O limiar onde estão
a esvaziar 
desditas
palavras.
Pequenas faíscas.
Angústias que fazem teu rosto se agitar.
Respostas não dadas,
palavras
desditas,
malditas
palavras.

Somos dois pelo caminho,
a andar com um sorriso,
a zombar do precipício,
a não pensar.

Somos dois que evitam pensamentos,
que enfrentam a solidão
que se nos impõe à condição
de sermos eternamente dois
e - nunca - um.

Nos colocamos lá fora (como quando aqui dentro),
a caminhar separados,
e esperar as horas dos dias.
Somos dois que em desagravo
aceitamos
a condição bípede e bipolar
de um mundo em forma de brinquedo
que gira e gira
sem nada encontrar...
temos uma vibração 
que se assemelha,
que se avermelha,
que se entrelaça às teias 
das ruas
onde andamos
lado a lado
eternamente
separados,
a ser conforto
um para o outro
na superfície plana de um mundo insular
onde a planta cega e cativa 
não cessa o desejo
de frutificar.


Fabiano Martins

terça-feira, 23 de junho de 2015

Nenhuma

Vaga hora
na esquina da rua.
Boemia é que segreda
quem às queixas se insinua.
Pois quando a poente estrela
apaga,
eis que a cadente pluma
continua...
eis que tu me chegas
à flor da palavra.
Eis que de ti
não sobra
nem
uma.


Fabiano Martins

sexta-feira, 22 de maio de 2015

1 dias

Ela se esgueira no ponto
olhando o infinito
com olhos rotundos
sob sons aflitos
de carros que passam
sem buzinar.
Motores aquecem o dia.
Fecho os olhos para enxergar.
Reminiscência psicológica terçã 
aquilo que ficou dos excessos
sinto doer em algumas manhãs.
Quando o centoenoventa chega rápido
penso que tive sorte.
Sento-me e abro um livro
e leio pensando no café.
O caminho solitário que me afasta de casa
me aproxima sorrateiro
daquilo que se disfarça
feito futuro,
feito a visão fugidia do ônibus 
que se aproxima
todos os dias,
todos os dias.


Fabiano Martins

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Artificial

Tanta casca, tanta cápsula:
este alvéolo de comprimido, 
este medo pós terapia.
Des-Casca.
Tira dessa nuvem branca e fria o foguete quente 
e retira das garrafas de refrigerante
razão;
e as cordas de um violino,
que tange invisível canção,
des-Afina, afrouxa.
Esgota
toda a tecnologia.
Isola o fator humano
- princípios, feitos, feitios -
tente achar definição.
Fora o que éramos: o que somos.
Fora toda compreensão.
Isola o fator humano, da verve subConsciente
que pulsa inaudível
o coração.


Fabiano Martins

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pureza material

Você entende português
quando eu falo inglês
no teu ouvido de francesa.
Não consegue perceber sobre a beleza
que te digo
quando, sob esses dias de puro presente,
reflito
sobre o resplendor 
das sutilezas.
Penso em português para falar português
com muita certeza
e a palavra chega quase morta em teu ouvido,
sem a pureza do que digo.
Há uma barreira
entre nós.
Contudo, sei que estou contigo
minha mão retesa a tua condição.
Eu te sinto com clareza no caminho,
embora nossas línguas não consigam refletir
o que sentimos.


Fabiano Martins