terça-feira, 14 de junho de 2022

Vontade


A vida é feito lida
que precisa da vontade de fazer. 
A vida é o resultado de haver.
Nela, há sobre o que refletir 
e matéria a se desfazer. 
Há o que consentir e também o que bendizer. 
A vida é feito lida.
Precisa de mão, precisa de braço. 
A braço fiz minha vida. 
Abraço quis meu cansaço.
A névoa já escurecida, 
o pensamento sempre em sobrepasso. 
Sôfrego pulmão, infla. 
Absorto, solto no espaço 
o ar que em meu peito sibila, 
a sorte que a cabeça precisa 
um dia que alguém negocia, 
sem exatidão, sem clareza, 
no mormaço. 
Antes ter do que não ter errado. 
Antes ter do que não ter falado. 
Antes ter do que não ter. 
Antes de querer é preciso aprender a desejar.
Eu desejo um pouco de brisa, 
meus pés descalços na areia do mar. 
Antes de ter tuas mãos nas minhas,
eu não sabia (como poderia?) o que era amar. 
Antes de ter tua vida na minha, eu não era ainda...
eu não poderia...
é preciso experimentar.
Fabiano Martins

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Palavra certa


Toda noite renascia

como uma fênix 

que não sabia o que fazia 

apenas agia 

como agira 

como agora 

numa fonte de lembrança 

onde a tristeza vigora 

Eu sabia que queria 

algo que não encontrava 

e buscava e buscava 

terapia de palavra 

redenção de poesia 

algo puro renascia 

que pelos dias 

sufocava 

algo puro renascia 

e toda noite 

Procurava 



Fabiano Martins

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Equilíbrio


Meu olhar é guiado pelo acaso,
mas é a vontade de ver 
que faz meus olhos abrirem. 
Esse querer incontrolável 
que vem incontestável 
direcionar meus passos sobre a terra,
e levar minhas mãos às teclas.
Eu não posso (não poderia) 
querer ver algo além daquilo que meus olhos abarcam. 
Seria como desejar ser mar sendo apenas barco.
Sou feito para navegar e não para navegantes, 
para sentir em vez de amparar,
para sobreviver e não para afogar,
para estar no limite entre dois abismos que se erguem profundos,
equidistante entre o espaço e o núcleo duro, 
para me equilibrar.


Fabiano Martins

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Sísifo

Você varre e a poeira volta a assentar.

Você come mas a fome volta a bater.

Você é feliz por algumas horas 

e sempre deseja voltar a ser 

Sísifo somos nós, 

e há quem diga que não há prazer em sofrer.


Fabiano Martins

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Legado


Caminho calmo pela rua e tudo vale a pena. 
Um dia sob a luz diurna,
vontade grande de escrever poema.
Se eu passarei sem deixar vestígio
que possa ao menos relatar em versos 
algumas coisas que neste período 
são a goma do meu universo. 
Eu gosto de estar entre a gente da cidade 
e sentir que estou vivo, 
e quando à face do nada impromptu brota
vejo luminosos edifícios. 
Para além de toda a complicação 
tudo é mais simples sem artifícios -
a vida é pé e mão, 

ser verdadeira é a única condição.
Eles e nós somos tudo, 
posso ouvir chamados pelo meu nome. 
Passaremos incólumes pelos infortúnios, 
e teremos sorte e teremos porte -
Estamos livres, 
escrevamos livros
e que além 
nada mais importe.


Fabiano Martins

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Natural


Tudo é fantasia.
Uma tremenda artimanha, 
que cria realidades iludidas,
feitas de terras planas. 

Em cabeças subservientes 
não cabem mentes subversivas. 
Caminha ideia na noite furtiva -
feita de sonhos errantes
que, antes 
de serem verdade,
foram à certa medida 
justapostos à realidade 
na pausa justa da lida.

Sou matéria a iterar, 
universo a se debater, 
como palavra a procurar 
significado para sobreviver.

Estou sobre mim mesmo deitado,
estendido em mil contemplações. 
Sou gatilho do que fortalece. 
Amores, dores, vulcões.
Batilho 
que tarde me ampara 
à noite de um mar que marulha. 
Bravio, saudoso, restante 
no ocaso a causar arrepio.

Mas temo não ter o bastante, 
causa de complicações, 
sou mestre de nada e não obstante
desejo viver das paixões.
 
O tempo não é feito de horas, 
é feito de gente. 
E tudo que nele vigora 
são feitos impermanentes.


Fabiano Martins

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Acontecimento


O espaço dinâmico onde tudo acontece,
é por vezes sombrio, ermo, frio.
Por vezes, estio 
em que só se anoitece.
Aconteceu de ser assim.
E eu levanto todos os dias para ver em mim 
coisas que não me dão orgulho.
Não me sinto preso. 
Sinto como se sentisse a dor de todo o mundo. 
Algo muito próximo a uma lâmina fria.
Ao que minhas mãos se retraem num reflexo maquinal para evitar.
Minha cabeça, em cima dos ombros, pesa.
Penso muito sobre coisas práticas.
Ensinamentos transcendentais não alcanço nenhum.
Penso sobre a sujeira que insiste em se espalhar pela casa
e no jantar que deverá ser feito.
Penso nos consertos obrigatórios 
dos ventiladores, aparelhos de barbear, computadores e relógios.
E penso no pior. 
Numa discreta ânsia de querer ter com o mundo, sou capaz de tocar sua dor, 
mas fico mudo.
Apenas as coisas casuais têm seu lugar à luz da sala.
Guardei meus livros russos e os alemães.
Vejo novelas, falo besteiras.
É curioso ver como os outros se comportam, encontrando seus significados
e pequenos milagres à beira da varanda.
Eu sou guiado agora pela ação
e jogo água pelo chão,
e me preocupo com o ar suspenso, 
com partículas invisíveis,
com palavras improváveis
e ações possíveis.


Fabiano Martins