quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Luta

Eu venci o medo, aquele desespero azul de fim de tarde.
Eu o vi morrer em minhas mãos
(como um adeus)
e renascer no outro dia.
Eu me vi vencer o medo
para novamente combatê-lo.
Um embate que leva todos os meus dias:
quando, ainda pela manhã, levanto e tendo a encontrar a cidade;
quando ainda antes do café me proponho
a essa total inequivocabilidade
feita de horas que não existem,
por pessoas que não se sabem.
Eu venci o medo, hoje. 


Fabiano Martins

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Lobo das estepes - Harry Haller

Eu, o Lobo da Estepe, vago errante
pelo mundo de neve recoberto;
um corvo sai de uma árvore, adejando,
mas não há corças por aqui, nem lebres!
Vivo ansiando por achar a corça,
ah! se eu desse com uma!
Tê-la em meus dentes, entre as minhas garras,
nada seria para mim tão belo.
Havia de tratá-la tão cordial,
de cravar-lhe nas ancas os meus dentes,
beber-lhe o sangue até a saciedade
a uivar depois na noite solitário.
Contentava-me mesmo com uma lebre!
Na noite sabe bem a carne flácida.
Por que de mim há de afastar-se tudo
quanto faz esta vida mais alegre?
Em minha cauda o pelo está grisalho
e também já não vejo as coisas nítidas;
há muito que morreu a minha esposa
e vivo a errar sonhando corças,
ansiando lebres,
ouço o vento soprar na noite fria
com neve aplaco o fogo da garganta
e levo para o diabo a minha alma.


Harry Haller

sábado, 5 de outubro de 2013

Quem

Eu só te escolho quando você me escolhe,
só te sorrio com a possibilidade da morte.
Silencio a verdade aparente
e, por trás dos gonzos que rangem, videntes,
apareço.
Sou a folha da árvore morta no outono,
a primavera que a planta tem de abono.
Sou o vento frio que escrespa o mar do sul,
sou feroz e sedento,
sou vil e sou um.

Eu só te mostro aquilo que consegues ver.
Só te emociono com as coisas que tens a capacidade de conceber.
Sou como a vontade da palavra que surge por entre os atos desesperados:
sou um rato, 
presto, 
um rato a morder.

Eu sou o som da noite escura e fria,
a solidão dos que entoam esta sinfonia.
Sou a felicidade incrivelmente arredia
e trago nas mãos a forma sublime e simples 
do desmerecimento eterno.


Fabiano Martins

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Vazio

Procuro olhar até ver o que não me é permitido enxergar.
Quero entender através do amor,
mas nem bem sei amar.
Procuro atentar a cada detalhe,
a cada forma que toma-se em ilusão,
a cada passo dado,
a cada adeus;
em cada negação.
Sou o bem que nasce espontâneo,
mal que assim se faz também.
Sou o que se permite acreditar 
mas, sem certeza,
sou dúvida.


Fabiano Martins

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Todos

Todos nós somos apaixonados por nós mesmos.
Todos nós nos matamos através dos nossos pequenos caprichos:
seja um cigarro,
seja uma dose, 
seja um doce.

Todos nós nos negamos em algum ponto.
Todos nós nos vendemos 
(à liquidação ou sem perceber).

Todos somos filhos da mesma causalidade.
Nossos medos são os mesmos.
Nossas preces chegam juntas ao céu.


Fabiano Martins

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Gol

O que procuro é uma doença para minha cura.
Rechaço a hipótese loucura.
Prefiro uma bebida quente
Uma andança pela rua.
É assim.
É assim que é.
Procuro condescendente uma linha de conduta qualquer
Qualquer palavra boba,
qualquer consolo ou razão.
Procuro aquilo que o artilheiro busca na zona do agrião.
Uma sorte pura.
Uma bola que sobre para o atacante que sou,
sobre a linha da vida,
com a cabeça erguida
para o objeto que apita
indicar
o gol


Fabiano Martins

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Gasto

Sumiu
como a luz que quando acende brilha forte e se faz perceber
e que depois de um tempo acostuma-se a ela
e se faz desperceber.
Como um ruído uníssono,
como um sentido de querer,
que desaparece como vem
depois que se adquire o costume
de o ter.

Desapareceu
como a brasa que se tornou a cinza do cigarro apagado,
como o tecido que se esgarça com o tempo,
como a alegria que termina
no embargo.

Premente e notoriamente desapegado,
como o amor, 
outrora sentido,
outrora querido,
agora
acabado.


Fabiano Martins