quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Vazio

Procuro olhar até ver o que não me é permitido enxergar.
Quero entender através do amor,
mas nem bem sei amar.
Procuro atentar a cada detalhe,
a cada forma que toma-se em ilusão,
a cada passo dado,
a cada adeus;
em cada negação.
Sou o bem que nasce espontâneo,
mal que assim se faz também.
Sou o que se permite acreditar 
mas, sem certeza,
sou dúvida.


Fabiano Martins

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Todos

Todos nós somos apaixonados por nós mesmos.
Todos nós nos matamos através dos nossos pequenos caprichos:
seja um cigarro,
seja uma dose, 
seja um doce.

Todos nós nos negamos em algum ponto.
Todos nós nos vendemos 
(à liquidação ou sem perceber).

Todos somos filhos da mesma causalidade.
Nossos medos são os mesmos.
Nossas preces chegam juntas ao céu.


Fabiano Martins

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Gol

O que procuro é uma doença para minha cura.
Rechaço a hipótese loucura.
Prefiro uma bebida quente
Uma andança pela rua.
É assim.
É assim que é.
Procuro condescendente uma linha de conduta qualquer
Qualquer palavra boba,
qualquer consolo ou razão.
Procuro aquilo que o artilheiro busca na zona do agrião.
Uma sorte pura.
Uma bola que sobre para o atacante que sou,
sobre a linha da vida,
com a cabeça erguida
para o objeto que apita
indicar
o gol


Fabiano Martins

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Gasto

Sumiu
como a luz que quando acende brilha forte e se faz perceber
e que depois de um tempo acostuma-se a ela
e se faz desperceber.
Como um ruído uníssono,
como um sentido de querer,
que desaparece como vem
depois que se adquire o costume
de o ter.

Desapareceu
como a brasa que se tornou a cinza do cigarro apagado,
como o tecido que se esgarça com o tempo,
como a alegria que termina
no embargo.

Premente e notoriamente desapegado,
como o amor, 
outrora sentido,
outrora querido,
agora
acabado.


Fabiano Martins

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Separados

Temos trabalhado a recusa como forma de prazer,
Procurado o inapropriado deleite na vontade de não ser.
Hoje, o abandono é o nosso abrigo
e o adeus o nosso grito.
Temos sido diferentes 
e mais intimamente iguais;
suprimido nossas vontades de superfície
com os gritos de um subsolo que apraz.
Somos negativamente positivos,
positivamente bem vistos.
Separados, eternamente separados.
Atados em palavras por entre sons que emito,
e também na sua voz,
onde arde o nosso grito.
 

Fabiano Martins

sábado, 18 de maio de 2013

Progressão


No alto da montanha
O saber que asfixia
O ar rarefeito
A solidão
A vista de cima
Vazia.
No alto da montanha
Em silêncio
Em sobrepasso
Ao sabor do vento que venta
E dos sons de animais que passam
O saber que asfixia
O ar rarefeito
A solidão
E a vista de cima
Vazia.


Fabiano Martins



"não são palavras e sons, arco-íris e falsas pontes entre coisas eternamente separadas?" Nietzsche

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Irmãos

Os irmãos que se odeiam
não se odeiam, absolutamente!
Não se entendem e se desmedem por serem filhos
dos mesmos pais, partes diferentes da mesma semente,
metamorfoses da natureza presente.
Os irmãos que se odeiam 
anseiam pelo perdão,
por sua dor diminuída,
por salvação.
São partes de um todo imaterial,
ligados por uma força incomutável;
são díspares e iguais.
Os irmãos que se odeiam se amam
e querem o bem para o outro,
e, certamente, velarão inconsoláveis seu caixão.
Mas não se entendem em vida por que são partes diferentes - anti-matéria e matéria.
Embora sintam o mesmo medo das coisas mundanas
e vivam intensamente
de forma igual
a mesma
solidão.

Fabiano Martins