quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Gasto

Sumiu
como a luz que quando acende brilha forte e se faz perceber
e que depois de um tempo acostuma-se a ela
e se faz desperceber.
Como um ruído uníssono,
como um sentido de querer,
que desaparece como vem
depois que se adquire o costume
de o ter.

Desapareceu
como a brasa que se tornou a cinza do cigarro apagado,
como o tecido que se esgarça com o tempo,
como a alegria que termina
no embargo.

Premente e notoriamente desapegado,
como o amor, 
outrora sentido,
outrora querido,
agora
acabado.


Fabiano Martins

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Separados

Temos trabalhado a recusa como forma de prazer,
Procurado o inapropriado deleite na vontade de não ser.
Hoje, o abandono é o nosso abrigo
e o adeus o nosso grito.
Temos sido diferentes 
e mais intimamente iguais;
suprimido nossas vontades de superfície
com os gritos de um subsolo que apraz.
Somos negativamente positivos,
positivamente bem vistos.
Separados, eternamente separados.
Atados em palavras por entre sons que emito,
e também na sua voz,
onde arde o nosso grito.
 

Fabiano Martins

sábado, 18 de maio de 2013

Progressão


No alto da montanha
O saber que asfixia
O ar rarefeito
A solidão
A vista de cima
Vazia.
No alto da montanha
Em silêncio
Em sobrepasso
Ao sabor do vento que venta
E dos sons de animais que passam
O saber que asfixia
O ar rarefeito
A solidão
E a vista de cima
Vazia.


Fabiano Martins



"não são palavras e sons, arco-íris e falsas pontes entre coisas eternamente separadas?" Nietzsche

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Irmãos

Os irmãos que se odeiam
não se odeiam, absolutamente!
Não se entendem e se desmedem por serem filhos
dos mesmos pais, partes diferentes da mesma semente,
metamorfoses da natureza presente.
Os irmãos que se odeiam 
anseiam pelo perdão,
por sua dor diminuída,
por salvação.
São partes de um todo imaterial,
ligados por uma força incomutável;
são díspares e iguais.
Os irmãos que se odeiam se amam
e querem o bem para o outro,
e, certamente, velarão inconsoláveis seu caixão.
Mas não se entendem em vida por que são partes diferentes - anti-matéria e matéria.
Embora sintam o mesmo medo das coisas mundanas
e vivam intensamente
de forma igual
a mesma
solidão.

Fabiano Martins

terça-feira, 30 de abril de 2013

Abandono

Ah! Uma alma notívaga -
dentre tantas outras -
anda pela linha do trem.
Alma incólume - não quer nada.
Unicamente deseja deixar de ser.
Eu a sigo pelo caminho.
Pequenina alma, cheia de vontades negadas.
Como pode o mundo ser tão duro contigo?
Eu sigo você por essa estrada,
e lhe desejo proteção.
Mas também não sou nada
e, portanto, nada posso fazer;
assisto à sua ruína num camarote
bem posicionado.
Ninguém se importa com a sua dor,
e nem mesmo você se importa
com a dor de ninguém.
Este é o fato.


Fabiano Martins

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Catecismo


É vago 
o soneto
que trata da ação;
sua verdade
tem vertentes alienadas
e desatenção.
É vago o soneto
cheio de versos.
É vaga
a solidão.
É vago o que pago,
muito vago,
entender a
didática
oração.

Fabiano Martins

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Diário

A cor do dia é intensa.
Às vezes se reflete no vidro da janela da casa da frente.
Revela a poeira escondida em pequenos grãos suspensos.
Às vezes aparecem nuvens e o clima ameniza.
Às vezes as nuvens negras encrespam as lisas,
é quando vem a tempestade. 
No verão, quanto maior a sua intensidade, maior o seu volume,
menor é o tempo que duram.
Às vezes, elas passam antes de começar.
Às vezes ficam.
A luz diminui conforme a Terra gira,
o sol ilumina outro lugar.
Rodamos em um planeta perdido,
até o último suspiro,
suspensos pelos fios do tempo
numa escuridão sem fim.


Fabiano Martins