sexta-feira, 18 de março de 2011

O Salto

(nota: uma das letras mais poéticas que já ouvi, principalmente a primeira estrofe)

As ondas de vaidade
Inundaram os vilarejos
E minha casa se foi
Como fome em banquete
Então sentei sobre as ruínas
E as dores como o ferro a brasa e a pele
Ardiam como o fogo dos novos tempos
Ardiam como o fogo dos novos tempos

E regaram as flores do deserto
E regaram as flores com chuva de insetos

Mas se você ver
Em seu filho
Uma face sua
E retinas de sorte
E um punhal reinar
Como o brilho do sol
O que farias tu?
Se espatifaria
Ou viveria
O espírito santo?
Se espatifaria
Ou viveria
O espírito santo?

Aos jornais
Eu deixo meu sangue
Como capital,
E às famílias o punhal
À corte eu deixo o sinal!

Carlos Pombo / Marcelo Lobato / Marcelo Falcão / Lauro Farias / Xandão

Andança

Escrevo e encarno
a dialética que em minha cabeça
compus.
Minha mente é colcha de retalho
onde não sei
qual palavra propus
pra definir melhor o cenário,
que só meus olhos podem ver.
Dentro das conexões escondidas,
reflexões sobre ter e querer.

A ótica minha é pessoal,
luta que travo contra ninguém
Sou avesso a elogios perigosos
e nunca demonstro o meu desdém
Me atém dizer que preciso mudar
e sempre penso nisso
assim:
mudar é preciso pois
acomodar seria a morte pra
mim

Por isso vou pela rua
rezando a Deus a sorte que é tua
Rangendo os dentes, batendo os meus pés.
Viés
prorrogado da tristeza nua.
Com profundo sorriso e um bonito retrato.
construo o meu viço
baseado em atalhos.

Corro então para sorte,
abro meus braços assim.
Falo comigo presente
e nunca falo de fim.
Nas conversas apenas palavras
constituem meu camihar.
Ando nu pelo inverno alto
para poder me orgulhar.

E orgulhoso me sinto jocoso,
sou o mesmo que tentei não ser...
Sê a boca, a coisa mais doce, peço,
e dê-me algo para beber.

Minha vida eu construo
sempre depois das seis.
Meu barato de andar mudo
não muda o que impus como minhas leis,
mesmo não sendo normativista
e passando longe de cartas sinceras de amor.
Te mostro o que há nos retalhos,
compartilho contigo esta dor.


Fabiano Martins.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Fiódor Dostoiévski

Sou mestre na arte de falar em silêncio.
Toda a minha vida falei calando-me
e vivi em mim mesmo tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra...

Fiódor Dostoiévski

quarta-feira, 16 de março de 2011

Serrano

A chuva caiu levando tudo.
Levou meu barraco,
meu filho,
me deixou mudo.
A chuva é desgraça pra comprar a bonança;
é tempo que nunca passa;
é o que marca a minha andança.

A chuva levou consigo
para enfim o carnaval encontrar.
Não digo que nunca digo,
pois gosto de tudo lembrar.

Da água ficou comigo
um sapato, um vestido.
E tudo ficou pra atentar
ao fato de que estou sozinho,
não é desatino,
não hei de acordar.

A lama vermelha, é lama.
A revolta no coração se conclama.
A paz se elege por aclamação,
mas é falsa.
É apenas dor mental esgotada pela física.
Não há choro e nem palavra
nesta média estatística.

O rio vermelho de lava
riscou em minha vida
tal a linha na minha mão.
Se é destino, não sei bem ao certo.
Acho mais que é intenção

De Deus? Não sei.
Do mal? também não.

Acho que a vontade de bicho
sobrepuja o artifício
e faz o homem levantar a sua mão
quando lhe oferecem comida,
um pouco de água,
toalha e sabão...
Dizem: Reconstrua logo sua vida.
Reconstitua-te da perda do irmão!

E a família que cedeu à enxurrada
na mesma tarde foi enterrada,
soterrada entre os córregos póstumos.
Ficou o azedume.
A carne humana inconforme
foi presa da vileza
e deixou natureza impune.

Os desígnios que vou acatar
são dados por quem me achou forte
a ponto de suportar.
Hei de lembrar que não tenho mais nada
e dos dedos feridos de tanto cavar
a recompensa de ver teus olhos de novo
não vou comigo levar.

Era sala, era chão,
Terra batida, meu coração.
Era filha, filho e irmão,
mulher, pai e mãe, contradição.
Era o que tinha comigo guardado
Todo dinheiro, todo o retalho,
um vira-lata,
minha atenção.

Corri, sei que corri,
mas vi que nada mais havia.
Senti, sei que senti
vontade de ir junto da família.
Mas não, e meus olhos fechei.
Mais, não! E meus olhos abri.
A boca espumou de vontade
de verdade
senti-me esvair.


Fabiano Martins.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A nave

A última nau adormece
num mar de fundo escuro,
como as escolhas que fiz permanecem
ecoando seu dizer mudo

Uno sou com o mundo
que nada mostra além da exatidão,
De tudo sou quando confuso
Rejeito aceitar seu quinhão

Inexatas palavras aparecem
me mostram através do pensamento,
ato este que vem de repente
e me leva a mente a contento,

Fico então parado a divagar
pensando nas milhões de opções
a dinamicidade me dificulta respirar
me traz algumas recordações

Aprendo com erros que tive
aprendo, mas volto errar
Obstante à perfeição me detive,
pois não sei o que devo encontrar

Neste mar que por vezes me afundo
Neste mar que me quer para tragar
como Nau, antes nave do espaço,
hoje esparsa em destroços sem ar.



Fabiano Martins.

Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa.

Poema das Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse:

Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos não perguntam nada.

O homem atrás do bigode é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo,

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade.