quinta-feira, 9 de julho de 2020

Perdão

Há pouco para se ter certeza na vida. 
Tudo é estratégia evolutiva. 
Da beleza ao amor, 
da auto-sabotagem à crença divina.
Nada é certo,
nem a razão, nem a endorfina.
Tudo é inconstante matéria a deixar de ser.
E se tudo é assim tão efêmero,
criado para não durar,
por que será que é tão difícil 
perdoar?


Fabiano Martins

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Desgaste

Há uma sombra
vaga
entre ondas
raras
que se erguem diante de mim.

Chuvas torrenciais
sobre campos e rios 

onde ninguém as pode sentir.

Energia desperdiçada
toca o chão,
cria fumaça.

Trovão são palavras
quando tudo que sobra é o dia 
e tudo que falta vira poesia.


Há o sentido original que se distancia 
e um outro que de forma lenta se apropria 
na continuação de tudo que sempre foi.
A confirmação do que é.


Fabiano Martins

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Parecer

Sei que não há nada que me ligue ao resto da humanidade.
No fundo de cada olhar pode haver beleza,
E também pode haver maldade.
Ainda assim, tendo a acreditar no futuro, 
a tentar buscar felicidade nas coisas que recebo do mundo 
Sinto-me livre para isso. 
E de fato, sentir é ser.
Experimento essa liberdade que me incita a um certo cinismo.
Há pessoas que não pensam sobre a natureza da realidade, 
sobre as mil formas de aniquilação que o universo indiferente planeja. 
Não se interessam por saber sobre os espectros de radiação que vemos,
sobre a idade dos planetas
e aquilo que vai na filosofia.
Não me sinto parte de um todo inteligente, 
mas vivo para negar o que não reconheço.
Não querer tomar parte na violência 
e com violência o fazer.
É, contra todos os argumentos em contrário, dizer:
Eu não pareço com você.
Eu não pareço com você.


Fabiano Martins

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Brevidade

Invento com amor fantasias para nossa rotina.
Diariamente,
sou até onde posso ser.
Mais comumente, sou o mais provável
dos seres,
que fala, caminha, defeca
e ama passar os dias 
inventando pequenas histórias
e compondo poemas singelos,
com a sinceridade que me permite 
a primeira maturidade,
na qual ainda se podem ouvir
ecos da juventude e da infância 
e ter com certa nitidez a visão 
das pontes e dos contructos.
Poética
de uma carne, que invariavelmente irá apodrecer,
para outra carne que também irá,
por mentes capazes de se unir
e se amar
por um breve momento.


Fabiano Martins

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Natural

"Oi, chuva" - disse a gota doce e cristalina de água de rio calmo.
Quando evaporada se juntou a outras gotas
mais exasperadas,
que antes eram salgadas e sujas 
mas que agora, filtradas, 
amontoavam-se umas dentro das outras 
num lago sublimado, voador
sobre as nossas cabeças.
"Oi, chuva" - disse eu, rapaz de boa índole,
ao me deparar com a primeira gota ácida
que me atingiu no fim da tarde.
Eu preferi ficar ali
quase a tocar a teia do real.
Eu senti o frio carnal e 
a vontade de ser como a chuva.


Fabiano Martins

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Herança

Algo em mim contém uma parte do que te formou.
Fui meio pelo qual a mensagem passou.
Fui eu mesmo querendo ser feliz,
e, perseguindo na inconstância 
que nos permitem os sentidos,
reconhecer um pouco de prazer na vida.
Por isso quis ter filhos.
Algo em mim quis assim.
Estou surpreso com as palavras 
doces as quais atribuo significados profundos.
Inadequado. Eu sei que ainda é raso o compreender infantil.
Mas me convenço de tudo que quero 
e da janela te mostro a cidade.
Cada vez mais pesam os braços. 
Cada vez mais o mundo pesa.
Eu não sabia como seria
mas tinha uma ideia do que esperar.
Crescer é querer e nunca encontrar.
Envelhecer é ter perante si seus ideais 
e assistir em um lugar confortável a vida que te aconteceu.
É sofrer um tanto menos pelas coisas que abandonou
e saber que tudo foi rápido demais.
Um segundo após o outro que trouxe até aqui
- foi rápido demais -
um minuto após o outro e já! 
O quanto vivo feliz só em mim tem resposta.
Algo meu, que eu fiz e dediquei muito tempo na preservação.
Impossível prender o tempo,
mas possível será reconhecer algo bom.


Fabiano Martins

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Ato contínuo

Na impossibilidade de fazer qualquer outra coisa,
começamos a escrever. 
Começamos na intenção de investigar algo que sentimos,
trazer nome a essas coisas que nos dá a vida.
E entendemos que devemos transgredir as regras da língua
para poder tocar (em parte)
a imaterialidade das matizes sentimentais.
Eu gostaria de encontrar minha paz,
o fim das ideias que se interpõem maquinalmente
de forma negativa.
Eu gostaria de poder reter algo verdadeiro em algumas linhas,
e, na impossibilidade disso acontecer,
continuo a escrever.


Fabiano Martins