terça-feira, 23 de junho de 2015

Nenhuma

Vaga hora
na esquina da rua.
Boemia é que segreda
quem às queixas se insinua.
Pois quando a poente estrela
apaga,
eis que a cadente pluma
continua...
eis que tu me chegas
à flor da palavra.
Eis que de ti
não sobra
nem
uma.


Fabiano Martins

sexta-feira, 22 de maio de 2015

1 dias

Ela se esgueira no ponto
olhando o infinito
com olhos rotundos
sob sons aflitos
de carros que passam
sem buzinar.
Motores aquecem o dia.
Fecho os olhos para enxergar.
Reminiscência psicológica terçã 
aquilo que ficou dos excessos
sinto doer em algumas manhãs.
Quando o centoenoventa chega rápido
penso que tive sorte.
Sento-me e abro um livro
e leio pensando no café.
O caminho solitário que me afasta de casa
me aproxima sorrateiro
daquilo que se disfarça
feito futuro,
feito a visão fugidia do ônibus 
que se aproxima
todos os dias,
todos os dias.


Fabiano Martins

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Artificial

Tanta casca, tanta cápsula:
este alvéolo de comprimido, 
este medo pós terapia.
Des-Casca.
Tira dessa nuvem branca e fria o foguete quente 
e retira das garrafas de refrigerante
razão;
e as cordas de um violino,
que tange invisível canção,
des-Afina, afrouxa.
Esgota
toda a tecnologia.
Isola o fator humano
- princípios, feitos, feitios -
tente achar definição.
Fora o que éramos: o que somos.
Fora toda compreensão.
Isola o fator humano, da verve subConsciente
que pulsa inaudível
o coração.


Fabiano Martins

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pureza material

Você entende português
quando eu falo inglês
no teu ouvido de francesa.
Não consegue perceber sobre a beleza
que te digo
quando, sob esses dias de puro presente,
reflito
sobre o resplendor 
das sutilezas.
Penso em português para falar português
com muita certeza
e a palavra chega quase morta em teu ouvido,
sem a pureza do que digo.
Há uma barreira
entre nós.
Contudo, sei que estou contigo
minha mão retesa a tua condição.
Eu te sinto com clareza no caminho,
embora nossas línguas não consigam refletir
o que sentimos.


Fabiano Martins

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Paradoxo do artista místico

Talvez, fosse ele o pecador Livre de pecado,
a buscar uma composição, em meio à sua escuridão,
para entender os seus diálogos.

E se acaso seu negror pudesse de um modo ser amenizado?

Pediria a redenção do que lhe aflige -
quando em sua condição já furtado?
O pecador que não se redime,
pois não há redenção sem pecado.


Fabiano Martins

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Efeméride

O irmão da Iracema morreu
Um acidente de carro
Ao irmão da Iracema
Falemos
Pois a terra se tornou menor
Sem ele
Sua morte agora efeméride
Na boca de quem teve que
Desmarcar a festa


Fabiano Martins

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Parte

Sois meu Deus, Multidão!
Como o universo grande, infinito...
violento e sem culpa.
Sem capa.

Violento e acidental.

Sois meu Deus,
um deus que rege segundo a física exige,
com escravos a erguer esfinges,
com monges cegos
de inaudível adoração.


Fabiano Martins