quinta-feira, 9 de abril de 2015

Artificial

Tanta casca, tanta cápsula:
este alvéolo de comprimido, 
este medo pós terapia.
Des-Casca.
Tira dessa nuvem branca e fria o foguete quente 
e retira das garrafas de refrigerante
razão;
e as cordas de um violino,
que tange invisível canção,
des-Afina, afrouxa.
Esgota
toda a tecnologia.
Isola o fator humano
- princípios, feitos, feitios -
tente achar definição.
Fora o que éramos: o que somos.
Fora toda compreensão.
Isola o fator humano, da verve subConsciente
que pulsa inaudível
o coração.


Fabiano Martins

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pureza material

Você entende português
quando eu falo inglês
no teu ouvido de francesa.
Não consegue perceber sobre a beleza
que te digo
quando, sob esses dias de puro presente,
reflito
sobre o resplendor 
das sutilezas.
Penso em português para falar português
com muita certeza
e a palavra chega quase morta em teu ouvido,
sem a pureza do que digo.
Há uma barreira
entre nós.
Contudo, sei que estou contigo
minha mão retesa a tua condição.
Eu te sinto com clareza no caminho,
embora nossas línguas não consigam refletir
o que sentimos.


Fabiano Martins

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Paradoxo do artista místico

Talvez, fosse ele o pecador Livre de pecado,
a buscar uma composição, em meio à sua escuridão,
para entender os seus diálogos.

E se acaso seu negror pudesse de um modo ser amenizado?

Pediria a redenção do que lhe aflige -
quando em sua condição já furtado?
O pecador que não se redime,
pois não há redenção sem pecado.


Fabiano Martins

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Efeméride

O irmão da Iracema morreu
Um acidente de carro
Ao irmão da Iracema
Falemos
Pois a terra se tornou menor
Sem ele
Sua morte agora efeméride
Na boca de quem teve que
Desmarcar a festa


Fabiano Martins

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Parte

Sois meu Deus, Multidão!
Como o universo grande, infinito...
violento e sem culpa.
Sem capa.

Violento e acidental.

Sois meu Deus,
um deus que rege segundo a física exige,
com escravos a erguer esfinges,
com monges cegos
de inaudível adoração.


Fabiano Martins

terça-feira, 17 de junho de 2014

Primeira Liberdade

Não é o mar; é o desejo pelas coisas que passam.
Possui uma beleza infinita, a inconstante matéria;
me faz acreditar que possuo nomes que não são meus.

Eu sou um ser dividido entre
as coisas em que acredito
e outras tantas que não vou acreditar.
Atenho-me e me apego a sorrisos,
bem como a choros e aos seus precipícios,
(bem como ao barulho do mar).

Não temo a dor, posto que ela existe
mas temo a servidão sem finalidade.
Procuro - temente a tudo isso -
a incompreendida primeira liberdade.


Fabiano Martins

Aquela luz

A morte nos fez irmãos em vida,
minha querida.
Em Vida.

A noite nos fez acreditar na mentira que é o dia.
A definição é por fim o que, em si, encerra significado.
Sou de uma inspiração perversa e insípida
Para olhares que não sejam de poetas.

A Vida é nossa poesia, minha querida,
a morte é nossa mãe mentirosa.
Raivosa, ela nos ensina sobre aquilo que falta.
A noite é uma megera ríspida e sinuosa:
nos traz o gosto bom no amargo;

nos faz temer o que se esgota.


Fabiano Martins