sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Resoluto

Os anos passam,
as pessoas passam,
minha vida passa,
mas nada disso
se pode ver.
As palavras saem da boca,
as pernas vão para frente,
o amor adormece num canto
e, depois de um tanto,
acorda novamente.
Um dia não temos mais nada,
a não ser
o que sobrou
de nós.
Não falo de sentimento
nem de nenhum momento,
mas do que sobrou de nós:
Pele e osso,
gordura saturada,
veias e pescoço,
mãos ressecadas,
boca sem dentes,
amores de criança,
vontade, chocolate e
Talvez
uma breve e inútil
lembrança.


Fabiano Martins

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Até

Amanheceu na favela
e ninguém
notou
que a luz
era dela...
e que ela
me abandonou.
Já não posso ver;
já não enxergo
o meu caminho.
Nessa condição
sei que devo ir
sozinho.
Não há dor em viver
nem vou morrer
de amor.
Só porque
a luz era dela
e ela
me
abandonou.


Fabiano Martins

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Força

O vento que alimenta
o fogo
que me mantém de pé
É força
que imprime
o imenso
impulso
contra a
ré.
Como a nota que emociona
e o clamor
que nela
há,
a mesma palavra que
define, existe também para
guiar.
E essa luz que brilha
como um ponto
no horizonte
de escuridão
É a cura que toda droga procura
e também
que toda
paixão.


Fabiano Martins.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Erros

A dor
sempre haverá,
ainda que seja
pela
má interpretação.
O ridículo vem de pensar
que somos
viciados em nos satisfazer.
E o erro maior
é saber
que ali
ela sempre
estará.


Fabiano Martins

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A beleza impossível

"Sou.
Como a vida que se consome
nessas horas
é."
Entendeu
que o amor
não é perfeito,
mas que amar
faz bem.
E, de algum jeito,
quis achar que existiria
depois também.
Mas o que sabe ele
sobre o minuto próximo
ao que se passa?
Nem dar a sugestão de um simples
palpite
pode.
Todavia, o amor que ele sente
não é assim;
é mais concreto,
mais existente.
E para ele isso faz sentido.

Então, no peito apequenado
pela luz que à janela se
encerra,
pôde entender
a importância
germinal
do imperfeito.


Fabiano Martins

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Tarde de chuva

Às dezoito horas e trinta minutos,
numa tarde chuvosa
perto do Verão,
uma criança quis saber
por que é que, às vezes,
chovia tanto de uma só vez.
Expliquei-lhe que a Natureza
não sabia que era hora
do rush.
A mesma criança, então,
me perguntou o que era
rush, foi quando percebi
que ela era
como a Natureza.


Fabiano Martins.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Reunião Anônima

Olá,
Meu nome é Amor.
Existo para libertar.
Minha duração está suspensa
em um fio tênue que se estende pelos dias.
Eu não sei quando é que
paro de existir.
Gostaria de perdurar.

Olá,
Eu sou a Boa Vontade.
Eu acho que me esquecem
porque eu não
sou verossímil.

Olá,
Eu sou a Diegese.
Existo, mas não
sei que você
sabe.

Olá,
Eu sou a Pureza.
Eu existo por um breve tempo,
depois vou embora.
Só retorno em corações
em que há amor
e boa vontade.
Ultimamente, não tenho trabalhado muito...

Olá,
eu sou a Tristeza,
eu existo para não deixar
ninguém esquecer
que eu existo,
e que por isso
é preciso perdoar.

Olá,
Eu sou o Perdão.
Eu mesmo não compreendo
todos os motivos pelos quais
eu existo.
Na maior parte do tempo,
eu estou apenas sendo pretendido.

Olá,
eu sou a Fé.
Eu não trago a exata
certeza,
nem de sim,
nem de não.
Acho que existo para guiar,
mas sou apenas
uma ponte no caminho.


Fabiano Martins

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sob o céu

Filho intolerante de um pai silencioso,
tento encontrar, afinal,
desígnio que salve minh´alma
do poço,
que me torne um ser mais
orbital.


Fabiano Martins

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sabedor

Eu não posso dizer que tudo vai acabar bem,
nem que você não sofrerá.
Na verdade,
eu não sei nem de que matéria
sou feito.
Desde que nasci, vivo do mesmo jeito:
tomando goles de ar.
Desconheço a face
da morte.
Dos anos, trago muitas marcas.
Não são os defeitos que
me forjam, nem tampouco
a ambição -
ao que o meu corpo secreta fluídos,
descarta resíduos
do que fora um
pão.
Tenho pena do orgulho que sentem
homens que sabem
o que homens
são.


Fabiano Martins

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A criança

Eu caminho
pela calçada,
o asfalto me condena;
eu me lanço à palavra
abonando a sentença.
Posso ser verbo,
linguagem,
imaginação.
Posso contra todos
os argumentos,
contra todas
as respostas, mas
contra palavras
impostas,
não.
Posso até vir a ser.
Quero saber
amiúde,
mas não há certeza
a se ter.
Eu caminho pela calçada,
ela me diz para
atravessar.
Eu dou as mãos
à beira da estrada,
não me atenho
à maré atrasada que segue
em fuga
no mar.


Fabiano Martins

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Inverno

No fim das contas, estamos aqui!
Eu olho para você
e a vejo.
Você me retribui um sorriso,
um aceno,
um cumprimento.
Eu olho para você,
mas, em olhar,
apenas capto imagens.
As cenas se embaralham;
o cérebro as organiza.
Percebo.

De verdade?
Talvez nem estejamos aqui.
Mas eu olho para você
e faz frio...


Fabiano Martins.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Um futuro olhar

Em um museu de algum lugar do mundo
um homem e uma mulher conversam.
Ela diz com um tom apaixonado: "Alguém aparece no fundo
da tela... adoro esse quadro" - explica.
Respira fundo e diz:
"Não dá pra perceber, mas depois de um tempo
você vê alguém no fundo da tela!"
"Não era pra ser, quero dizer,
não há necessidade de haver alguém
ali. Entende?" Ele faz uma breve
pausa antes de continuar.
"Com uma certa boa vontade
você pode vislumbrar alguma coisa,
qualquer coisa... não quer dizer
que seja um homem, pode ser
um animal à espreita, pode ser uma flor,
pode ser até um erro."
"Um erro?", ela o interrompe, aparentando não entender.
Ele vai além: "Sim, ele pode ter começado a pintar
naquele dia com o pincel errado, manchou a tela
e..."
"Você não está sugerindo que todo o impressionismo
foi baseado em um erro de Monet, está?"
"Não, estou apenas dizendo onde a beleza
deste quadro está! Você gosta dele porque vê um homem,
porque você, talvez, sonhe com o arrependimento
de alguém que te magoou... um homem
com certeza, um homem! O homem que você
vê na tela."
Ela não diz nada.
Ele prossegue: "Eu vejo um animal."

E você, leitor. O que você vê?


Fabiano Martins.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Tripulante

Não sinto o eixo se movimentar,
os verões me silenciam.
O tempo inteiro
em movimento, rodo.
Velocidade e modo
cadenciam.

Giro entre paredes
escarlates,
com suas estalactites,
entre o gris
e o lilá.

Sou resíduo
nesta esfera colorida,
acidentada e perdida,
simplesmente
a navegar.
Giro o tempo todo
sem repouso,
sem um forte luminoso,
na escuridão,
bem devagar.


Fabiano Martins

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Eu prefiro a margem

De que valem os poetas?
Para que servem as poesias?
Se o céu não é só azul,
se o mundo é propenso
à hipocrisia.
De que servem as palavras
das reflexões
dos auto-didatas,
se as pessoas querem ser
cópias exatas.

De que me adianta saber que vou morrer,
se vivo tentando enganar a morte.
De que adianta ter a liberdade
para falar sobre mistérios,
se tudo o que os outros desejam
é a tranquilidade de se esquecerem,
feito o nada.

Pois então só tenho a mim mesmo.
E as minhas mãos
ficam descompassadas,
escrevem ante o que a cabeça dita.
Escrevem palavra
por palavra.

Eu sou marginal, pois tenho
ideologia em meu coração.
Sofro por tudo aquilo
que me causa indignação.
Talvez me torne respeitável
e aprenda a sufocar a ilusão;
a vilipendiar meus ideais
em busca da socialização.


Fabiano Martins

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Poeira

Tenho medo de ser exagerado de menos.
Meu grande medo é ser pequeno.
E o mundo, sendo tão grande,
me enche de dúvidas,
quando do espaço,
dissonante,
uma foto chega,
e na penumbra das estrelas
o gigante é poeira.

O que serei, então, senão a soma
dos meus medos...


Fabiano Martins

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Autonomia Parcial - Vídeo

video

Epifanias

Cada novo adeus
incide
como arrogância
nas ínfimas
constatações.
Epifanias são para artistas,
não são
para as multidões.

Eu falo sobre a púbis
da mulher amada,
sobre a beleza de suas
depilações,
enquanto ela
só revela a dor que há em cada,
afeita à raíz
de suas preocupações.


Fabiano Martins

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Recortes

Tenho um olhar menino
capaz de causar
grandes paixões.
Tenho mãos à obra.
Tenho olhos endurecidos
por qualquer coisa infame
que tenha
visto.
Tenho dor que se completa
com a dor alheia.
Tenho a chuva a desdenhar
dos meus findos anos.
Tenho a graça
que se pôs a voar
ao longo do tempo.
Tenho cimento
sobre mim... e agora?


Fabiano Martins

Ao redor

O problema em discutir sobre as grandes
questões
é que nisso se toma
tempo demais.
Sendo assim, o grande perigo
é acabarmos esquecendo
que as corriqueiras
também são
essenciais.


Fabiano Martins