quarta-feira, 5 de abril de 2023

Incompreensível

 

O que havia antes da grande explosão? 

Talvez um lugar vazio. 

Um lugar...

talvez uma grande explosão anterior a essa,

e um outro universo que existia (e antes disso?).

Como é ilógico e difícil aceitar que nunca houve um início 

e que nunca haverá um fim. 

Que capacidade de abstração pode compreender essa ideia,

se vivemos e morremos, 

se tudo começa e termina, 

e mesmo o sol explodirá (já se sabe) em algum momento. 

E não há manutenção possível que resista 

à morte da nossa estrela. 

Então, se antes de existirem os planetas e os seres, 

e poemas escritos à tinta, 

já existisse esse outro universo, talvez muito parecido, 

e se desse universo houvesse o nosso partido,

como algo que aconteceu muito antes disso

e antes

e antes...

então, por que fomos feitos para querer permanecer?

Por que fomos moldados para sofrer nas despedidas?

Por que não aceitamos que só há uma única vida, 

uma única experiência física? 



Fabiano Martins 

quinta-feira, 9 de março de 2023

Sol


Quero ter calor à beira do mar

Sentir o sol me abraçar 

E esquecer

Dos navios, bailarinas, baterias

Sobretudo desejo viver

E vida é coisa dura 

Que pune e alivia 

Sem medida 

Sem disciplina 

Quero encontrar o crepúsculo selvagem 

Sentir a falta que vem na estiagem

O frio do vento que bate

Deixar a chuva me molhar 

Apenas temos uma passagem

Uma viagem

Um único momento

O passado vai embora rápido 

Mas o presente é lento 

Por isso quero ter com sol 

Sentir nos ossos o efeito do

Vento

E me esquecer das distrações 

Dos desvarios 

Dos desalentos 

E me esquecer na paisagem 



Fabiano Martins


quarta-feira, 8 de março de 2023

Vazio II

 

Canta a voz de um coração vazio 
no tempo a navegar um rio 
ouvido frio 
ouve som 
música nova 
melancolia ruidosa
vontade perniciosa 
canta um coração pela boca 
poesia é vazão
não respondem as rosas 
faço minha a condição 
não há o que ver além 
nem há de haver alguém 
que ouça essa canção 
mas canta o coração vazio 
enquanto chove 
até o estio.

Fabiano Martins

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Das chuvas


Das chuvas, trago fulgor.
Das chances, tiro lição. 
Das mortes, lembro da vida. 
Na vida sinto tesão.
Paixão que de sorte alimenta 
e de azar quer se alimentar. 
Palavras não servem de nada. 
Palavras te podem matar... 
eu sinto é pena do mundo 
mas não tenho outro lugar. 
Mergulhado na água me acalmo. 
Água do ventre e do mar. 
Do passado é de onde observo 
um futuro a se auto-fazer. 
Não posso, não devo, e 
sobretudo, não nego: 
eu sou todo querer.


Fabiano Martins 

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Aqui


A que ou a quem posso chamar de meu?
Que coisa seria minha, verdadeiramente minha? 
Que autonomia me permitiria nessa vida, com a máxima convicção,
estar certo? 
Nada há senão o meu não saber 
eterno,
que de tanto existir
não acha mais dissabor na condição,
mas quer festejar, 
ter com outros iguais e com eles comemorar 
- não a razão -
mas o fato de estarmos aqui.


Fabiano Martins

terça-feira, 14 de junho de 2022

Vontade


A vida é feito lida
que precisa da vontade de fazer. 
A vida é o resultado de haver.
Nela, há sobre o que refletir 
e matéria a se desfazer. 
Há o que consentir e também o que bendizer. 
A vida é feito lida.
Precisa de mão, precisa de braço. 
A braço fiz minha vida. 
Abraço quis meu cansaço.
A névoa já escurecida, 
o pensamento sempre em sobrepasso. 
Sôfrego pulmão, infla. 
Absorto, solto no espaço 
o ar que em meu peito sibila, 
a sorte que a cabeça precisa 
um dia que alguém negocia, 
sem exatidão, sem clareza, 
no mormaço. 
Antes ter do que não ter errado. 
Antes ter do que não ter falado. 
Antes ter do que não ter. 
Antes de querer é preciso aprender a desejar.
Eu desejo um pouco de brisa, 
meus pés descalços na areia do mar. 
Antes de ter tuas mãos nas minhas,
eu não sabia (como poderia?) o que era amar. 
Antes de ter tua vida na minha, eu não era ainda...
eu não poderia...
é preciso experimentar.
Fabiano Martins

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Palavra certa


Toda noite renascia

como uma fênix 

que não sabia o que fazia 

apenas agia 

como agira 

como agora 

numa fonte de lembrança 

onde a tristeza vigora 

Eu sabia que queria 

algo que não encontrava 

e buscava e buscava 

terapia de palavra 

redenção de poesia 

algo puro renascia 

que pelos dias 

sufocava 

algo puro renascia 

e toda noite 

Procurava 



Fabiano Martins