domingo, 27 de janeiro de 2013

Geografia

A mesma luz que brilha na areia
dobra-se na água crespa
da baía.
Nosso pouco entendimento
de nós mesmos
tem espelho em nossa 
rica geografia.
A mesma cor que se perde
com o tempo,
O mesmo dom que se rende
à ignomínia:
Ignorante sê a contento
para poder na jornada
encontrar alegria.


Fabiano Martins

sábado, 12 de janeiro de 2013

Convulso

O estado em que eu me encontro
não é o Rio.
E eu não conto pra ninguém.
O estado em que me encontro
é impreciso e apartado do desdém.
Está além do que as palavras alcançam.
Está além do que os olhos podem ver.
Pertence à vertigem 
do epilético 
e ao desejo de não 
ser.


Fabiano Martins

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Noite e Dia

Quero abandonar a dúvida
em benefício da certeza vã
e efêmera.
Ser, portanto, menos sedento de tudo.
Quero.
Entretanto, a madrugada favorece o pensamento alheio,
a contemplação a partir de tudo que se quer dizer.
A madrugada me fez querer a nescidade.
Enquanto o dia me fez querer a sanidade.
Mas talvez, apenas porque,
à noite,
as coisas ganhem proporções demasiadas,
principalmente, no que diz respeito 
àquelas que nos deixam menos atentos
e mais prolixos,
mais distantes e descompromissados com 
a realidade aportada em nossas terras pelos outros.
Talvez porque a noite seja um terreno fértil para 
as ideias furtivas e transcendentais.
Então talvez por isso eu queira abandonar a dúvida
em prol de um benefício,
de uma certeza que hei de fazer de ofício,
e, assim, bramir com a credulidade rasa que me permite o mundo, 
as vitórias opacas que com certeza surgirão nesse futuro.
E porque sei que tudo é fruto da tristeza fugidia, 
que tudo isso irá mudar ao meio dia,
não cedo ao abandono que se insinua.
Pois se fosse assim a paz que vejo nos olhos, 
quando realmente me vejo, 
essa paz não mais
em meus olhos
estaria.


Fabiano Martins

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Citação

"A Beleza não é só uma coisa terrível, é também misteriosa. Aí lutam Deus e o diabo, mas o campo de batalha é o coração dos homens."
- Mítia Karamázov

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Quente


Das copas verdes das árvores do aterro exala um cheiro amargo.
Amêndoas amassadas apodrecem no asfalto.
Faz calor nas ruas movimentadas dos bairros chiques,
nos humildes estabelecimentos onde homens perdem suas vidas a trabalhar.
Faz ainda mais calor nas areias disputadas das praias,
na zona norte,
no morro,
com a pipa no alto ao lado do sol.
Está quente
e por isso sei que as luzes brilharão e que o ano acabou.
Faz um desumano calor substituído pelo vento matinal.
Conforme o tempo passa, calor e vento passam
(e venta quente quando venta).
Fora das salas de escritórios, das mesas de comando,
das cadeiras e poltronas pensadamente dispostas,
onde ares condicionados amenizam o calor que faz,
pessoas ambulam com suas crenças amiúde,
cinicamente,
a ignorar o ciclo que se fecha.
Pensam em seu trabalho enquanto lambem o suor dos lábios,
pensam no fim do ano e fazem contas com as costas grudadas nos bancos dos ônibus.
Está quente. É natal.
Faz calor e algo de familiar se pode reconhecer
desta presença cálida que nos lembra (brasileiros)
do fim.
"Que as benção sejam derramadas e os pedidos atendidos", diz o letreiro que leio.
Eu, poeta, rogo por pensamentos que valham a pena o registro,
neste calor obsceno e cínico,
a ambular e querer;
nesta caminhada: passo após passo, com os olhos úmidos e incerteza,
com a fé impossível a irrigar meu coração,


na beleza de mais um dia de dezembro.


Fabiano Martins

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Humanos

Eles sabem que se movem,
sabem de sua condenação,
sabem de seus medos
e de sua graduação.

Eles sabem que sentem dores.
Muitos sabem que olvidarão.
Coisas que hoje lhe são importantes
Amanhã,
não mais serão.

Eles esquecem seus saberes
e desrespeitam sua oração;
São esquecedores de amanheceres
apregoadores da razão.

E mesmo sabendo das coisas, analisando-as com devoção, -
contabilizado suas experiências enquanto digerem a massa do pão, -
Não percebem dos seus saberes a mais óbvia implicação:
que o amor é importante
e que a vida é um avião.


Fabiano Martins

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Autômato

O que te sobra quando 
dos estressantes relacionamentos empregatícios, 
dos realmente imensos edifícios,
dos dias mais omissos,
aparece o momento em que a glória falta 
e a Grande Aventura se revela?
Sobra você, bem constituído ser, edificando uma pirâmide 
cujo o resultado final nunca lhe será permitido ver.
E, às mãos calejadas de tanto sofrer,
sobra a desgraça de saber que não é chegado a nós o
segredo por trás das potências que regem as coisas do mundo.
Um homem só é destinado ao que seu corpo percebe.
Eu entro pela esquerda, enquanto alguém sai pela direita. 
Repulso com violência o que alguém conserva.
Há muitos vieses e o pragmatismo trará lugares seguros.
É como uma peça mal ensaiada: 
todos divergem quanto às ideias 
e deste caos discordante, empiricamente,
a evolução acontece.


Fabiano Martins