quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Presente

Escrevi umas palavras para em meu íntimo experimentar a liberdade.
Eu escrevi uma banalidade.
O que posso dizer?
Não lhe digo do amor que há em escrever,
nem da dureza que há em existir.
Não lhe digo sobre o pequeno, o ínfimo momento no qual estive feliz.
Escrevo umas palavras, sabe?
São banalidades.
Estão suscetíveis a perecer sob o tempo - um tempo que é só sensação.
Mas não estou só (por enquanto).
Esta noite não estive triste.
Por algum motivo a química de hoje me fez feliz.
Por algum motivo vivo este segundo como alguém que vê beleza na vida.
A beleza de dizer estas palavras.
A trivialidade destas coisas românticas.
Esses cânticos, afinal, de amor de poeta.
Escrevi, pois, da minha alma: uma ideia cativa fez-se liberta.
Um pequeno descanso.
Eu me deitarei e amanhã hei de levantar.
Minhas mãos se erguerão aos céus na esperança de existir.
Ou talvez apenas beba todo o meu café.


Fabiano Martins

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Filtro

Um poema sujo
Lido com a luz na tua retina
Fio de brilho a correr pela prata
Retinindo
Expandindo
Sendo apenas o que é
Eu mantenho a fé
Faço notas e as guardo
Acredito naquilo que é meu
Um poema agora limpo
Filtrado pelo brilho do olho seu


Fabiano Martins

terça-feira, 10 de abril de 2018

Verdade

Algo em mim quer revolucionar,
algo me pede para que mude minha realidade
Cada ideologia plantada em mim
pela vontade
Quer transformar a dor em oração
a palavra em poesia
a calmaria em intensidade.
Não sei se reajo, se sou por demais verborrágico
Algo em mim me pede para que seja assim.
A cada gota de suor festejo,
a cada lágrima que me escorre sou grato,
sinto gozo nas palavras que escrevo,
sinto saudade e angústia de verdade.
"Calma", pede-me o cônjuge desacostumado com a minha ansiedade
"Reflete sobre as coisas que diz, encontremo-nos para um café na cidade".
Mas a cidade é fria, esfria o que está dentro da xícara,
fala-me entre sinais de trânsito e pedestres - mina a linguagem.
Porém no momento em o sol se põe a descer, recupero minha felicidade.
No momento em que ofereço a esmola a um menino,
em que o assalto e o espanto se apresentam repentinos, 
em que uma bala atravessa e queima a carne,
no momento em que há dor, em que há amor, 
em que consigo viver o presente tal como ele é.
Mas então, esqueço de quem fui: 
frivolidades, banalidades, efemérides.
O café e a loja de discos,
o carro, os degraus das escadas, 
E as palavras que contrariam o tempo.


Fabiano Martins

sexta-feira, 2 de março de 2018

Aprender a ver

Devo aprender a ver
aprender a observar
A queda do pássaro n'água
um peixe a menos no mar


Fabiano Martins

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Dois

Amo as pontes que construo,
aquedutos do meu ser.
Amo amar você e estar contigo em grupo
amenizando a dor que há.
Amo pensar no que podemos ser,
no que poderemos conceber,
feito criança bebê,
feito eu 
feito de vozes e nuvens;
feito eu feito de você.
Feito meu feitio que me faz te ver
como o que me incita à luta,
o que me comuta,
o que me é incomutável,
inconcebível,
inexplicável,
irascível.

Tua voz,
minha voz -
gritos já roucos
coisas já partidas...
minhas expectativas
retardadas de premissas,
extirpadas de razão.
Fútil.
Não pude dizer que fui útil
quando o que quis fazer foi egoísta:
narcisista,
deficiente de amor
vítima de mim mesmo.


Fabiano Martins

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Noturno

Enfrenta a noite escura,
de pecados consentidos:
seus sentidos são por mim sentidos;
meus desejos são olvidos.
Subtraído, não percebo o calor se dispersar.

Enfrento a noite fria
com o ardor de um poema áspero, 
que se prende à garganta,
e que por isso não se deve declamar.

Enfrenta a noite, amiga,
de celeumas confluídas,
de cabeças soerguidas,
e crianças adormecidas,
de palavras,
de insônias,
de vazão.


Fabiano Martins

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Pretensão

Tudo quanto há no mundo e que acho belo
e vejo, e desvelo, entendo como um prenúncio 
de uma briga inevitável, de motivo invisível.
Minhas mãos se ocupam em fazer:
interponho meus tijolos com cimento.
Lágrimas são a cola, 
Sorriso é o alimento
Tudo quanto entendo
e ensejo um querer pra lá de exagerado
incide em mim por algo do passado.
E mesmo assim,
com a cabeça ungida,
com a guarda erguida
e a grande vontade 
(que me em parte me ensurdece),
sinto que há algo que me foge
que não pretendo ou posso querer pretender
explicar.


Fabiano Martins