Um poema sujo
Lido com a luz na tua retina
Fio de brilho a correr pela prata
Retinindo
Expandindo
Sendo apenas o que é
Eu mantenho a fé
Faço notas e as guardo
Acredito naquilo que é meu
Um poema agora limpo
Filtrado pelo brilho do olho seu
Fabiano Martins
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
terça-feira, 10 de abril de 2018
Verdade
Algo em mim quer revolucionar,
algo me pede para que mude minha realidade
Cada ideologia plantada em mim
pela vontade
Quer transformar a dor em oração
a palavra em poesia
a calmaria em intensidade.
Não sei se reajo, se sou por demais verborrágico
Algo em mim me pede para que seja assim.
A cada gota de suor festejo,
a cada lágrima que me escorre sou grato,
sinto gozo nas palavras que escrevo,
sinto saudade e angústia de verdade.
"Calma", pede-me o cônjuge desacostumado com a minha ansiedade
"Reflete sobre as coisas que diz, encontremo-nos para um café na cidade".
Mas a cidade é fria, esfria o que está dentro da xícara,
fala-me entre sinais de trânsito e pedestres - mina a linguagem.
Porém no momento em o sol se põe a descer, recupero minha felicidade.
No momento em que ofereço a esmola a um menino,
em que o assalto e o espanto se apresentam repentinos,
em que uma bala atravessa e queima a carne,
no momento em que há dor, em que há amor,
em que consigo viver o presente tal como ele é.
Mas então, esqueço de quem fui:
frivolidades, banalidades, efemérides.
O café e a loja de discos,
o carro, os degraus das escadas,
E as palavras que contrariam o tempo.
Fabiano Martins
sexta-feira, 2 de março de 2018
Aprender a ver
Devo aprender a ver
aprender a observar
A queda do pássaro n'água
um peixe a menos no mar
Fabiano Martins
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Dois
Amo as pontes que construo,
aquedutos do meu ser.
Amo amar você e estar contigo em grupo
amenizando a dor que há.
Amo pensar no que podemos ser,
no que poderemos conceber,
feito criança bebê,
feito eu
feito de vozes e nuvens;
feito eu feito de você.
Feito meu feitio que me faz te ver
como o que me incita à luta,
o que me comuta,
o que me é incomutável,
inconcebível,
inexplicável,
irascível.
Tua voz,
minha voz -
gritos já roucos
coisas já partidas...
minhas expectativas
retardadas de premissas,
extirpadas de razão.
Fútil.
Não pude dizer que fui útil
quando o que quis fazer foi egoísta:
narcisista,
deficiente de amor
vítima de mim mesmo.
Fabiano Martins
terça-feira, 28 de novembro de 2017
Noturno
Enfrenta a noite escura,
de pecados consentidos:
seus sentidos são por mim sentidos;
meus desejos são olvidos.
Subtraído, não percebo o calor se dispersar.
Enfrento a noite fria
com o ardor de um poema áspero,
que se prende à garganta,
e que por isso não se deve declamar.
Enfrenta a noite, amiga,
de celeumas confluídas,
de cabeças soerguidas,
e crianças adormecidas,
de palavras,
de insônias,
de vazão.
Fabiano Martins
quinta-feira, 5 de outubro de 2017
Pretensão
Tudo quanto há no mundo e que acho belo
e vejo, e desvelo, entendo como um prenúncio
de uma briga inevitável, de motivo invisível.
Minhas mãos se ocupam em fazer:
interponho meus tijolos com cimento.
Lágrimas são a cola,
Sorriso é o alimento
Tudo quanto entendo
e ensejo um querer pra lá de exagerado
incide em mim por algo do passado.
E mesmo assim,
com a cabeça ungida,
com a guarda erguida
e a grande vontade
(que me em parte me ensurdece),
sinto que há algo que me foge
que não pretendo ou posso querer pretender
explicar.
Fabiano Martins
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Encontros
Entrecortados consigo ouvir
os passos dados
num momento em que o erro era iminente
me persigo constantemente
iludido,
crescente
Então, proponho uma alusão
a um outro aspecto
do que é lembrar de mim
tão jovem
ainda
no escuro da rua
a tatear calçada
a me manter de pé frente à casa iluminada
procurando chaves, que deixei cair,
e volto aqui ao presente
presto de ter visto tudo
de forma clara e condescendente -
o que hoje procuro é minha própria identidade.
Refletido no olhar da minha mãe, vejo que sou criança.
Volto a pensar por trás daqueles olhos,
o tudo dinâmico me escapa,
mas obstinado procuro o significado de cada palavra,
sem pressa, sem anseio.
Na noite passada, demorei a dormir,
estive ensimesmado
lutando contra a resignação,
procurando resignificar,
procurando inspiração.
Ela me aparece às vezes, a avó da minha avó,
não sei se é memória ou reminiscência de histórias que contaram,
ela me abraça carinhosamente e há um abismo entre nós:
ela sabe da morte presente, eu aniversario na vida
igualmente há uma conexão entre nós
eu a olho e não percebo suas rugas,
nada sei do seu fim próximo
apenas a quero abraçar.
Ela me faz um carinho no rosto e me dá um apelido.
Eu procuro seu olhar.
Hoje me esforço para me reconhecer.
Tanta coisa já passada
e os retalhos de quem sou não se refletem
no espelho
quase como um vampiro me vejo: vitimado o menino doce,
a voz infantil.
a voz infantil.
A palavra veio errada,
em meio a uma enxurrada de recordações,
num encontro comigo, onde só eu estive presente.
Fabiano Martins
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