quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Notícia da Morte da Mãe: Dois Irmãos

Ao ouvir a notícia
um deu de ombros
o outro se ajoelhou
e palidamente
depois deste torpor
o frio acalentou a um a idéia fixa
ao outro apenas esfriou
A lágrima molhava a face de um
enquanto no outro
nada existia de constipação
A um pouco demorou para que nada mais importasse
ao outro nada importava mesmo antes disto
A um o dissídio fez suplicar a misericórdia de Deus
ao outro fez lhe aumentar o sentimento ateu
A um o contemplar era magnânimo
ao outro nada
nada


Fabiano Martins

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Tergiversar

Tergiversastes à sua dor
saiu à noite
a procura
do que em si
deixou
Valeu-se do bom corpo
Tanto
que lhe fizeram adorno
Valeu-se do que tinha
à mão para lutar
Tergiversou à sua dor
mas desconhece o próprio lugar
Lúgubre é
seu caminhar
por si mesma
um dia vai acabar
por si mesma
em mim mesmo
mesmo eu
sozinho neste lugar
te olhando tergiversar
aviso
nada mais há para assistir
nada mais há para morar
A veia usurpada está
não lhe corre sangue
não lhe ocorre nada
em nada habitará
Havia chegado cedo
tentou se esquivar
já era meio dia
e continuava no mesmo lugar
"Não!" eu lhe gritei
Não vá por ali caminhar
o perigo é atrativo e luxuoso
mas o lixo é real e sinuoso
se encontra mais fácil em qualquer lugar
"Não!" eu gritei ao te ver partir
Depois: "Vá pra onde desejar"
disse eu a mim mesmo,
perdendo-me no encontro dos olhos
sucumbindo ao fio de quem não sabe amar


Fabiano Martins

Para Fiódor

"É preciso atentar
para o lado de dentro da construção
o lado interno escondido
por dentro de sua fundação
é preciso olhar a cidade
e compreendê-la de tal forma
que não fique nenhuma dúvida
quanto ao inexorável presente na sua história"

Parafraseou o ser presente em si
Evidenciou existência vaga
Brilhou incandescente à luz da cadente estrela
fez sorrir e corar a mulher com a alma verdadeira
Vendeu-lhe um sonho
se encaminhou
engendrou qualquer esquema
tratou de seu problema
odiou a humanidade
e ainda mais
a amou de verdade
Esteve à noite febril
sem conforto
esteve cego, surdo, quase violentamente morto
aprendeu a não confiar
e a sempre ver a cidade
a olhava com olhos diferentes
ensinou que o homem é homem
devido à sua complexidade
e perplexo
abriu um sorriso a si mesmo
"é hora
é preciso, vamos!
tente compreender
se o absurdo pode ser plausível
o indelével também há de derreter
Mas que não seja em suas mãos
posto que se conclama
Não procurar demais o vício
é o difícil fim pra quem ama"

"Olhe de perto a cidade
e lembre da casa dos mortos
cemitério é toda ela de verdade
é possível, se olhar bem,
ver seu corpo"

"Esta é uma apenas
mas poderia ser todas por inteiro
o fim da cidade é ser do homem,
mas, por vezes, ela
engole seus mineiros
Ao que o resgate se demora
e depois da hora
aparece na inexatidão pronlogada
Mais ou menos como a vida faz:
A noite inteira amanhecer
para enfim, fugaz
acordar de madrugada"


Fabiano Martins

Ouro de Tolo

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês
Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73
Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa
Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa
Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto: E daí?
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos
Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco
É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua
Cabeça animal
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está constribuindo com sua parte
Para o belo quadro social
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar
Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

Raul Seixas

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Parto

Parto do meu princípio
parto em meu início
morro no meu fictício fato de precisar o impreciso

Morto, os olhos aquém, brilham

Vôo no novo aflito do olho que anda
por caminhos convictos

Não me oponho, me suponho
Me acanho e, posto, triste em fotografia,
me espalho aos deixes-de-lado desta monotonia
Minha condição é propícia ao palavrear, apóia as minhas mãos
sobre o teu paladar,
e daqui, para sempre, caço caminho feito, feitio e presente

Condecoro-me em palavras sutis
Faço esboços em entranhas e párias desta pátria que me pariu
e me criou, e por mim andou,
E em mim deixou marcas

São olhos vermelhos e óleos essenciais
Massageiam-me a alma para nunca mais
Lembra os anos passados, as gotas de sangue e de orvalho
Orvalharam minha fera, minha vida que se desterra

Deixo, contudo, uma prece, um súbito da coerência
Quis dar a mim mesmo papel e tirar-te à noite com certa opulência
Acalentei-me nos braços, madrugada que foi daqui até entre os iguais
Aterrou com terra batida, pedras e sufocou meus matagais



Fabiano Martins

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

leiame

Parado observo o tempo passar
Cigarro para observar
Ver o que atrás da fumaça
Branca e cinza que espaça
Solta no ar a girar
Toca o fio suspenso
Num momento propenso
Em que muito atento
Para observar

Um fio que flui
além da fumaça
Eu vejo no tempo
Não dá pra negar
A verdade se esgarça
É a lei da trapaça
Transporta meu grito
Me volta a te andar

É o trilho do trinco
trancando a porta
Entrega teu brinco
Meu peito comporta
O dia em que brinco
Me assalta eminente
Vem como brilho
numa manhã contente


Mas o desejo latente
pulsando na veia
Fez correrem feridas
Tal qual as vidas
se ateavam na areia



Fabiano Martins

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Para o relógio andar

De trabalhar tanto
o dia fez-se noite
e neste pernoite silencioso
podemos tocar o barulho do obsequioso
e assustador
palor que traz a falta de ruídos

Nos meus sentidos
propagava-se atenção
Locais fora de órbita
sinais sem distinção

Mas pode ser que de repente
o drama todo se resolva
e de uma hora para outra
a massa desande a dar bolo e não pare mais

e o prometido tempo
(já prometido há algum tempo atrás)
se faça presente de súbito
com seu olhar latente
e suas perguntas subsequentes
Em forma de gente
pra dizer: "Não disse?"

"Disse, tempo, disse..."
é a resposta que darei, e continuarei:
"mas o que podia eu
senão afirmar que era impossível.
Naquele momento, tempo, eu não te via..."

E da cadeira do escritório,
olhando pra janela
Meu dia, minha hora, meu óleo
Minha caminhada para chegar na frente,
Tudo o que quer dizer a vida
de repente
dá leve impressão,
mesmo que com imprecisão,
De que o tempo estará certo
quando ressurreto
aparecer em minha frente
pra dizer que tinha dito

e tinha razão

Fabiano Martins