sexta-feira, 25 de março de 2011

Calma

Não há melhor calma
que aquela
induzida
não há porque não se envolver
nas tramas que o tempo exige
Elas são tramas
tristes
Firmadas para tirarem-nos o chão
e fortalecerem ou fazerem
perecer
todo o bem que há
Mas a calma induzida
fortifica a campana
pré-guerra
internamente
sinceramente
para o bem do processo de evolução
o bel prazer inverso
de sofrer
o suportar ver a felicidade alheia
que entremeia a discussão cada vez mais áspera com o
coração
e some nas atas que o tempo traz feito samba
ou álcool
dá lugar ao ódio racional
ainda que sem razão
abre a porta do carro em movimento
e se joga

Fabiano Martins

quarta-feira, 23 de março de 2011

Gota d´água

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água...

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água

Chico Buarque

Kerouac e Neal Cassady



“Nós as abraçávamos e dançávamos. Não havia música, apenas dança. O lugar lotou inteiramente. As pessoas começaram a trazer garrafas. Caíamos fora para curtir os bares e voltávamos voando. A noite estava se tornando mais e mais desvairada. Desejava que Dean e Carlo estivessem ali – aí percebi que estariam deslocados e infelizes. Eles eram exatamente como o homem melancólico da pedra que geme na masmorra, erguendo-se dos subterrâneos, os sórdidos hipsters da América, uma inovadora geração beat, com a qual eu estava me ligando lentamente.”

Trecho do livro "On the road"

terça-feira, 22 de março de 2011

Eu ouço música

Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...

Eu ouço música como quem está morto
e sente
já
um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá...

Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.


Mário Quintana

segunda-feira, 21 de março de 2011

Clube de Esquina n° 2

Por que se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou prá trás
A primeiro passo asso asso ...
Por que se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios

Ficam calmos calmos calmos...
E lá se vai
Mais um dia
ah ah...
E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração na curva de um rio rio rio rio...
De tudo se faz canção
E o coração na curva de um rio ...
E lá se vai...
mas um diaaa
E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente gente gente...

Lô Borges, Márcio Borges e Milton Nascimento.

Película

Não é preciso fechar os olhos
a escuridão não deixa ver
De olhos abertos pareço olhar ao longe
na amplitude de todo negro que vislumbro
São as luzes da cidade que procuro
e em seu véu tenebroso e escuro
continuo.
Sei que devo encontrar chama no final da procissão
com os pés sem proteção e às mãos nada além de sonhos e cera

Quando saí de casa, à minha rua dei adeus
procurei o que achava que seria diferente
e encontrei.
Encontrei comigo procurando por algo mais.
Como em um círculo
meu caminho dá voltas.

Comporta esta pieguice em meu coração que não se aquieta.

A dor é completa
e de sonhos se alimenta.
A porta outrora aberta
pouco a pouco
vai fechando.

Em meus pés encontro a poeira do caminho transcorrido
tinha poucos anos
mas me achava já vivido

como o quê

porém, vívido
com certeza podia ser.
Pois me ponho a peregrinar e nunca a me esconder.

A luz em meu peito acende de repente,
e, de repente, sou levado a perceber
que a vontade reticente é a mais certa
chance que me leva até você

Sou como um cemitério de recordações,
sou o cemitério à beira do mar.
Trago demais grandes e marcantes lembranças,
deságuo para então à areia retornar.

E fico contente com os dias de calor
e me acalento nos dias de frio.
Tenho por mim quem seja cobertor,
tenho flores nos túmulos vazios.

E nem ao menos me interpelo ou atrapalho.
Trago palavras que confortam e motivam.
Emociona-me falar de tudo isso.
Sou por bem o mesmo filme que todos já viram.


Fabiano Martins.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Feira Moderna

Tua cor é o que eles olham, velha chaga
Teu sorriso é o que eles temem, medo, medo
Feira moderna, o convite sensual
Oh! telefonista, a palavra já morreu
Meu coração é novo
Meu coração é novo
E eu nem li o jornal
Nessa caverna, o convite é sempre igual
Oh! telefonista, se a distância já morreu
Independência ou morte
Descansa em berço forte
A paz na Terra, amém

Fernando Brant / Beto Guedes / Lô Borges