sexta-feira, 5 de julho de 2019

Voz

É como uma voz falando comigo.
Pede-me que execute as coisas,
como se não fosse eu,
ou como se precisasse de mim para executar essas coisas que me pede.
Não é como um sonho.
Na verdade, é a mais dura realidade.
É uma voz que me incomoda 
que me acorda
e me alerta
e me distrai.
Incontrolável.
Não vem pelos ouvidos,
é processo interno.
Voz talvez não seja,
mas juro que posso ouvi-la.
ou talvez vê-la,
considerando todas as possibilidades,
conjuntando e desconfigurando 
como criatividade.


Fabiano Martins

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Do início ao fim

Alma perdida no mundo,
entre jogos baseados no azar,
não deixe de crer em nenhum segundo
na energia por trás do olhar.
Não deixe que a dor comprima
teu modo original de querer se salvar.
Tente sempre se lembrar:
a morte nos torna irmãos em vida.
Não esqueça da alegria que te anima
entre tantos becos sem saída,
entre tanta coisa que termina,
entre tanto eterno recomeçar.


Fabiano Martins

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Exercício

Eu queria poder, 
saber aprender,
e não querer sequer merecer
ser
coisa que não devo
ser.
Esquecer, desmerecer, anteceder e desvanecer meu querer 
que é de ter e ler você,
poder beber,
se der,
se houver de lhe aprouver, 
Jagermeister,
e, se isso fizer transcender
já depois do anoitecer,
e, no fim, aceder
ao prazer
de mais uma vez ver
amanhecer


Fabiano Martins

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Homem morcego

Sou indiferente a você
Independente do seu querer
Sou matéria iterada sofisticada
Esticada, recheada, inflada
Estico dedos longos sobre teclados negros
Percebo tudo quanto posso e quero
Ensaio, aventuro e ensejo
Percebo nas coisas que pude 
razões que por vezes me esqueço
Construo algo constructo
Morcego Homem Morcego


Fabiano Martins

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Inefável

Eu nem percebo que já não sou o último de mim.
Eu nem sei (que de mim) não fui eu quem quis ser.
Estive andando pela rua pensando.
Estive fazendo planos.
Sem entender que de mim esses planos nasciam,
mas que não eram meus.
Eram livres.
Coisas naturais.
Eram, de fato, casuais.
E entre tantos planos,
estive, sim, participando da vida.
Mas não me apercebi que a reproduzia.

Caminhei - mas foi algo caminhou por mim.
Eu achava que bebia e que brigava e que comia.
Enquanto algo era que me queria assim: levando meus dedos ao teclado.
Algo invisível dependurado.
Algo fatídico e inevitável.
Algo verídico e inefável.
Algo político, moral, natural e inexpugnável.
Algo que é por mim.
Destino.
Já não sou último. 
Pouco posso ver. 
Já não sou o último - algo me leva a crer. 


Fabiano Martins

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O bule

Quando alguém fala e olha em minha direção
Percebo uma intenção feita de sujeito e ação
Como se alguém fizesse o comentário de uma luz que é muita escura
de um barulho que é muito baixo
Existem diferentes formas de se ter inspiração
diferentes seres que se manifestam de diferentes maneiras
Existem pessoas que procuram apenas pelo bem que há no fundo de uma garrafa vazia
Alguém que se completa na verborragia
Existem uns mil jeitos de se sorrir
umas vinte mil maneiras de se sentir satisfeito
É como se alguém dissesse que não vale a pena existir
ou que uma pessoa não é nada
Sinto as verdades escoando por trás do sentido oculto das palavras
Como se fosse guiado apenas pela ironia
Sinto a vontade de quem ia, mas de repente, deixou de ir 
uma verdade vazia
Sinto como se o sol não fosse do dia
ou como se o som não rompesse o silêncio
Sinto a paz do edifício que aluía
devido ao peso mal calculado
sinto o frio da espinha do calculista
do mal engendrado
Sinto demais
Sinto tanto
que sinto muito 
e no entanto 
nada
Absolutamente nada
é maior do que o vazio 
do santo oco
no andor de uma vigília


Fabiano Martins

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Presente

Escrevi umas palavras para em meu íntimo experimentar a liberdade.
Eu escrevi uma banalidade.
O que posso dizer?
Não lhe digo do amor que há em escrever,
nem da dureza que há em existir.
Não lhe digo sobre o pequeno, o ínfimo momento no qual estive feliz.
Escrevo umas palavras, sabe?
São banalidades.
Estão suscetíveis a perecer sob o tempo - um tempo que é só sensação.
Mas não estou só (por enquanto).
Esta noite não estive triste.
Por algum motivo a química de hoje me fez feliz.
Por algum motivo vivo este segundo como alguém que vê beleza na vida.
A beleza de dizer estas palavras.
A trivialidade destas coisas românticas.
Esses cânticos, afinal, de amor de poeta.
Escrevi, pois, da minha alma: uma ideia cativa fez-se liberta.
Um pequeno descanso.
Eu me deitarei e amanhã hei de levantar.
Minhas mãos se erguerão aos céus na esperança de existir.
Ou talvez apenas beba todo o meu café.


Fabiano Martins